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Você tem medo de falar em público?

Esse é um dos temores mais comuns na vida das pessoas.Glória Portella, com sua experiência em Psicanálise e Artes Cênicas, fala sobre esse sentimento

Ele era um dos gerentes mais competentes da empresa. Contava com o respeito de seu chefe, com a admiração dos colegas e dominava a função como poucos. Mas entrava em pânico toda vez que tinha que apresentar os resultados da sua área na reunião mensal da diretoria. Diante do grupo, com um microfone na mão, parecia um profissional iniciante, inseguro e inexperiente. Quem já não viu esse filme? Por que alguns profissionais com uma bela formação, um currículo invejável e experts no que fazem não conseguem demonstrar a mesma segurança diante de uma plateia?

Ha estudos afirmando que o maior medo humano é o de falar em público – maior até que o medo da morte. E, claro, um sentimento assim tão poderoso pode interferir de maneira drástica na carreira profissional. Em muitos, esse medo manifesta-se na dificuldade de liderar equipes. Por se sentirem muito inseguros, têm dificuldade de tomar decisões, dar ordens e demonstrar firmeza. Alguns acabam indo para o outro extremo, sendo arrogantes, o que não cria empatia com seus subordinados, azedando de vez a relação. Há pessoas que trancam a faculdade para não ter que enfrentar uma plateia. Alguns chegam a desenvolver síndrome de pânico. É comum vermos profissionais competentíssimos no que fazem, mas com dificuldade de se expressar, serem preteridos por outros menos competentes, porém, muito mais eloquentes. Por isso, quem não nasceu com o dom da palavra costuma se sentir inferior. E isso aumenta ainda mais o medo de dar branco, de não conseguir passar o recado com credibilidade, de não chegar até o final da palestra, de se desmoralizar, de ser rejeitado.

A boa notícia é que é possível romper com esse ciclo vicioso. Dou sempre meu próprio exemplo para os alunos. Antes de dar aulas de oratória e criar meu próprio método, fui atriz de teatro e de TV. Trabalhei em diversas peças, em novelas da Globo e  na Escolinha do Professor Raimundo. Entretanto, na minha primeira aula de teatro, a voz não saía, eu tremia e ficava vermelha. Simplesmente fui me treinando ao longo desses anos. Não sou diferente nem melhor do que ninguém.

O receio de falar em público é na maioria das vezes gerado na infância. A imagem que o sujeito adquire de si mesmo segundo o modelo do outro é a construção do seu ego. Afinal, é através do olhar do outro que nos construímos como sujeito. No  conceito de Narcisismo (Lacan) ,a mãe funciona como um espelho refletindo a imagem da criança através do seu olhar . Assim como os bebês, adultos estão eternamente à procura de um olhar que os aprove. Esta realidade psíquica se estende de forma inconsciente durante vida. O pânico de falar em público está associado ao medo de nos expor a esse olhar. Como sou visto pelo mundo? Será que agrado? Será que vão me achar burro ou incompetente? Para aqueles que tiveram más experiências na infância, as respostas a essas perguntas acabam sendo marcadas pelos tão opressores e familiares bordões: “Cala a boca! Você não sabe falar direito! Você é burro!” “Tadinha ! Ela é tão tímida que nem consegue falar”. Essas palavras vão virando um mantra na cabeça do pobre indivíduo!

Por isso, dominar todas as técnicas de dicção, ritmo, oratória ou impostação da voz não traz resultados efetivos. Para vencer sentimentos tão profundos e complexos, é preciso que a mudança aconteça de dentro para fora. É fundamental que essa imagem negativa seja desconstruída; que o sujeito questione essas crenças adquiridas pelo olhar externo e comece a ter uma voz ativa diante do olhar do outro: “Pera aí! Eu não sou isso que dizem de mim. Posso ser diferente!”

O desejo vem da falta; da insatisfação.  Portanto, esse mal-estar  consigo mesmo pode ser o gatilho necessário para o crescimento  rumo a construção de uma nova imagem. O que importa, na verdade, não é o receio de falar em público, mas sim o desejo de sair desse lugar;  o desejo de se superar.

Atualmente ministro cursos de oratória, faço treinamentos em empresas e atuo em consultório. Muitas vezes, um aluno faz o meu curso de oratória, trabalha as técnicas, melhora a sua fala em publico e sai feliz da vida. Porém, na maioria das vezes – diria quase 75 por cento  dos meus alunos – eles acabam migrando para o meu consultório porque percebem a necessidade de trabalhar de forma mais profunda essa questão, que está ligada a sua imagem e autoestima.

Não adianta a pessoa ler dicas ou assistir a vídeos de como melhorar a fala em público. O treinamento tem que ser vivencial, prático. É preciso treinar cada indivíduo de forma particular, aprimorando seu potencial, desenvolvendo novas habilidades e lidando com dificuldades específicas. Só assim é possível alcançar uma mudança efetiva.

Uma das coisas mais importantes das minhas aulas é ajudar a pessoa a manter a calma antes de entrar em ação. Além de técnicas de oratória, ensino sobretudo técnicas de controle da respiração. Se a pessoa está tensa e com a respiração curta, a expressão dela fica bloqueada. O que muitas vezes acontece é que a pessoa fala uma coisa e o corpo diz outra. É o que chamamos de linguagem não verbal. Como, por exemplo, o aluno ficar ‘dançando’ de um lado para o outro ou enfiar as mãos no bolso porque não sabe o que fazer com elas. Quando estudei interpretação em NY, tínhamos uma hora de relaxamento para cinco minutos de palco! Da mesma forma que o nosso estado mental e emocional altera a nossa respiração, o inverso também ocorre. O relaxamento antes de entrar em cena é fundamental.

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