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Vigorexia: quando a vida fitness está exagerada, é sinal de alerta

Um distúrbio de imagem, com overdose de exercícios, está se tornando mais e mais comum. Isso pode trazer danos à saúde.

 

Músculos, músculos, músculos. Parece que o ideal físico da atualidade se resume aos sarados, saradíssimos. Mas até o estilo de vida fitness, quando exagerado, pode trazer consequências – e das ruins. E a busca pelo “corpo perfeito” pode nunca encontrar um fim.

– É uma tendência da atualidade – explica a psicóloga Carla Ribeiro. – A nossa sociedade pratica o culto ao corpo, a cultura se cristalizou assim.

Já o nutrólogo e neurologista Rafael Higashi chama a atenção para os padrões que a mídia introjeta e nos comportamentos que condiciona – como a do exercício, prática que pode se tornar uma compulsão para alguns.

– Estamos em uma sociedade que coloca, nas novelas, por exemplo, gente magra vinculada à vida intensa de academia como única maneira de emagrecer e definir o corpo, o que não é verdade -analisa Higashi. – Há muitas formas de fazer exercício e ser saudável. Cada um tem uma genética e devemos trabalhar com o que o nosso corpo permite.

Há quem decida praticar exercícios físicos por conta própria, o que pode comprometer seriamente a saúde. A psicóloga Carla Ribeiro explica que a Vigorexia – conhecida como Transtorno Dismórfico Muscular ou Síndrome de Adonis – é o nome dado ao excesso no culto ao corpo, que pode causar sérios danos ao indivíduo não só física, mas psicologicamente.

– A vigorexia, hoje, é vista como doença de quem se excede nos exercícios em busca do corpo perfeito, um resultado insaciável, na maioria homens de 18 a 30 anos. O paciente que apresenta um estado de vigorexia não percebe os avanços do seu corpo e nunca está satisfeito com sua aparência – explicou.

Os principais sintomas da vigorexia são dores musculares, excesso de cansaço, fome, irritabilidade excessiva e principalmente, a ansiedade. Ela explica ainda que a pessoa que possui esse transtorno pode sentir ter efeitos nocivos com o passar do tempo. O vigoréxico desenvolve sintomas obsessivos. A dieta altamente restritiva, por exemplo, ou o uso de substâncias químicas e anabolizantes são vilões na vida desses pacientes. A psicóloga conta ainda que essa situação geralmente se combina com características recorrentes – um delas, a baixa autoestima e dificuldade de aceitação de si mesmo.

– Se estou bem comigo, eu não vou ficar obcecada com isso. A pessoa acaba vendo o tal ‘corpo perfeito’ como única expressão de quem ela é – acrescentou. – A longo prazo, o vigoréxico pode sofrer sérios danos à sua saúde, como insuficiência renal ou hepática, problemas de circulação sanguínea. O uso de esteroides e anabolizantes também podem ocasionar problemas ainda mais graves, como câncer de próstata e doenças cardiovasculares.

Carla conta que é muito comum que o problema seja percebido por uma terceira pessoa.  Amigos e familiares, em geral, são os que sinalizam a questão e podem apontar a necessidade de tratamento psicológico. Como em qualquer situação de transtorno compulsivo, é muito raro que ao vigoréxico busque ajuda, já que, em um primeiro momento, elas não têm consciência da própria compulsão.

– Indivíduos vigoréxicos não têm só a questão do exercício excessivo – lembra Carla. – Podem levar a extremos a dieta recomendada por um nutricionista, diminuindo ainda mais a ingestão de calorias. E só vai perceber o mal que isso causa quando já estiver muito doente.

O nome da doença suscita imediatamente uma associação com a anorexia. Rafael Higashi confirma –  as duas disfunções alteram a percepção do próprio corpo. Um anoréxico se vê acima do peso, quando em geral não está, e deixa de comer. Já o exercício é saudável em determinada dose e, quando há exagero, o envelhecimento vem mais rápido, a mulher pode parar de menstruar, o homem pode ter a libido reduzida.

– Pode-se ter ainda lesões musculares, perda de socialização, deficiência de vitaminas e minerais. É bom lembrar que um atleta profissional tem uma equipe de médicos e nutrólogos dando suporte – diz Rafael.

As causas do desenvolvimento do transtorno precisam ser investigadas levando em conta a possibilidade da existência de doenças de base como depressão ou ansiedade.

– As pessoas precisam olhar para si, enxergar que a satisfação não está somente no corpo – encerra Carla.

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