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“Medos permanentes desbotam a poesia da existência. Vamos lavar nossos valores, nosso amor, nossa vida”

Manoel Thomaz Carneiro lembra que precisamos restabelecer uma sociedade de amor, serenidade, ternura e amparo

 

Na segunda feira passada, fui, dar uma palestra com Liliane Santiago – com quem tenho uma parceria no Espaço Cultural da Barra- a Jacarepaguá. Ao sair do carro, percebemos que, bem ao lado, havia uma guerra entre facções. Nos agachamos e assim seguimos até o local onde eu faria minha apresentação.

Apesar de toda a adrenalina que este fato gerou, consegui fazer fluir muito bem as palavras. Mas confesso: tive de exercer com potência a capacidade que tenho de evitar ficar em dois sentimentos ao mesmo tempo.

No entanto, apesar de termos saído ilesos, passei a semana imerso nas reflexões sobre o mundo atual, nas várias regiões de nosso planeta. Em pensamento, fui à Indonésia, onde homens são açoitados em praça pública por serem gays; na Rússia e no Brasil, a violência aumenta em relação às pessoas que vivem a homoafetividade. Em Londres, vimos nesta mesma semana um atentado brutal numa arena, onde encerrava os últimos acordes de um show; e ainda temos, em Gana, o lixo tecnológico “doado” pela Europa, que contamina a região. Ah, eu teria muito mais a dizer no que tange à violência e à indiferença. Mas podemos, sim, perceber que a aura do mundo está psicótica.

Por que definir como tal?

Conteúdos da psicose são constituídos pelos traços de agressividade, pela falta de olhar para a dor do outro, pela obsessão com idealismo fanático, pela intolerância às diferenças, pelos desejos autocentrados num narcisismo exacerbado onde a ideia do” Eu quero, então Eu posso é o discurso legitimado pela psicose, vivido sem olhar as consequências que causam no outro e até para si mesmo.

E hoje ainda vivemos a  terrível falta de vínculos afetivos profundos que fazem com que a capacidade de permanência nas relações estejam fugazes.

Consequências?

Há uma sensação em cada um de nós de desproteção e desamparo, onde o medo de viver se instalou.

Estes perfis da atual realidade nos causam medo e ansiedade. Por causa disso, se detectam os elevados níveis de hormônios do estresse que causam tantos danos ao equilíbrio emocional e físico.

Medos eventuais são naturais. Mas os medos permanentes desbotam a poesia no existir. O ser humano se habitua a tudo. Este é um fator positivo de um lado, mas  nos leva a legitimar a turbulência da vida cotidiana. Nos acostuma com aspectos que deveriam ser eliminados.

Todos nós precisamos, para viver, de uma paternidade que ampara. Esta necessidade psíquica, inerente a nós, é fator componente de um espectro que se inicia no nosso núcleo familiar, com a presença de cuidadores, e se estende até os líderes políticos, que na verdade têm como finalidade nos proteger.

Em todas as civilizações sempre existiu a concepção de um Totem protetor, uma representação dos deuses; nas três grandes religiões monoteístas têm-se o Deus Todo Poderoso, criador do céu e da terra.

O que isto significa?

Que para apaziguarmos as incertezas diante das indiferenças do destino, é condição suprema nos apoiarmos nas ideias e nos princípios norteadores do bem estar. E também em líderes capazes de  promover a sensação de amparo de nossa casa maior, o mundo em que vivemos.

Os reis, os governos e o exercício das leis humanistas representam os totens cuidadores de cada um de nós em sociedade.

Estas figuras representativas de poder simbolizam a boa paternidade.

Mas o que temos, atualmente?

Paternidades que só promovem a sensação de abandono, de desamparo. Falta amor, falta respeito ou falta ética? A resposta é mais profunda do que estas palavras podem hoje em dia representar. A filósofa e psicanalista Viviane Mosé afirma que falta lavar algumas palavras para elas ganharem o sentido original. Sofismaram palavras e inventaram novos sentidos.

A filosofia do prazer ganhou a conotação de um hedonismo absoluto. O que dá prazer a cada um pode ser realizado, o que se elege como princípio pode ser legitimado.

Em nome de um ideal abusivo e por vezes calcado numa busca neurótica de poder são traçadas as estratégias.

Ideais narcísicos extremos são psicoses.

Vive-se a brutalidade das conquistas.

Assim se instala a incapacidade de promover o que faz bem a cada geração. Os instrumentos de lazer, tão desenvolvidos, não conseguem mais nos apaziguar, pois estamos num contínuo estado de desamparo.

A humanidade está sob uma paternidade comprometida. Se por vezes, em consultório, escuto as mágoas e diagnostico as consequências de pais ausentes, displicentes, excessivamente autoritários e narcísicos, imagino e lamento o ser humano diante desta paternidade eleita que age de forma tão brutalizada.

Limpar o mundo das lideranças enlouquecidas é um dever. É um direito.

O mundo está perdulário em relação ao tempo de nossa permanência nesta terra. Queima-se o mais profundo prazer que podemos ter através da sensação de sermos olhados, protegidos e com isso amados.

Felicidade está naquele momento que você deseja que nunca acabe, que dure para sempre. Mas a filosofia atual promove essa felicidade? Quanta gente nem consegue dormir sem uma química indutora. Estamos no susto!

Na segunda feira, em Jacarepaguá, Liliane e eu tivemos que nos encolher para viver.

O amor, a serenidade, a ternura e a sensação de amparo foram igualmente encolhidos. Que filosofia existencial é esta, que ao invés de proporcionar o crescimento, impõe o encolhimento?  Nem nas ruas podemos mais ampliar nossos passos. Belo acúmulo  de riquezas onde seres humanos explodem e ferem nossa paz de tantas maneiras…!

Vamos lavar nossas metas. Vamos limpar nosso cotidiano e deixar às claras o que está coberto pela sujeira do desequilíbrio.

Vamos lavar nossos valores, nosso amor, nossa vida. Vamos cuidar do corpo da nossa existência.

De onde surge a esperança?  Da terapia das paternidades. A minha, a sua e a de todos.

Que valores regem sua vida?  Eles representam os regentes das suas escolhas.

Viva a Paternidade elaborada!

Porque evitar sonhar com o melhor? Afinal, como afirmou recentemente Eduardo Dussek, o sonho da gente pode não levar a gente ao sonho, mas faz você sair do lugar.

*Manoel Thomaz Carneiro é professor e psicanalista

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