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“Uma sanfona pode levar alegria para uma casa e para todo país”

O sanfoneiro, compositor e inventor da Orquestra Sanfônica Marcelo Caldi fala da história de seu instrumento e de sua paixão pelo fole.

 

 

Foto: Leo Aversa

 

Os anos 1950 são a década de ascensão da sanfona no Brasil. A árvore genealógica do fole começa com Luiz Gonzaga no final dos anos 1940 e cresce muito com Sivuca, Dominguinhos, Orlando Silveira, Mário Zan, Pedro Sertanejo, Oswaldinho, Severo, Camarão, Zé Calixto, Waldonys, Luiz Carlos Borges, Borghetinho, Toninho Ferragutti, Adelson Viana e tantos outros. Hoje essa árvore conta com numerosos galhos, ramos, folhas, flores e frutos de tantos sanfoneiros jovens que empunham instrumentos de 8 a 120 baixos.

Ainda naqueles anos 1950, houve uma profusão de publicações sobre o instrumento em revistas e jornais. Datam da mesma época os métodos de aprendizado, destacando-se dois deles: os dos professores Mário Mascarenhas e Alencar Terra. Estes métodos são ainda hoje muito utilizados e musicalizaram muita gente no país. Curioso é saber que Gilberto Gil, Edu Lobo, João Donato, Roberto Menescal, iílson Peranzetta e Cristóvão Bastos, entre tantos outros artistas, iniciaram seus estudos musicais no acordeom, provavelmente assessorados pelos conhecimentos desses livros.

Dos anos 1960 aos 1990, houve um declínio acentuado da presença do acordeom na música brasileira, principalmente após a bossa-nova (cujo marco é o ano de 1958), com a modernização das harmonias das canções de melodia suave e sonoridade jazzística. A estridência da sanfona perdeu seu lugar para o microfone que amplifica a voz sussurrada. Após a bossa-nova, passamos pela Jovem Guarda, pelos festivais da canção, pelo Tropicalismo, pela maior invasão da música estrangeira, pelo rock brasileiro, axé e pagode. Até que, nos anos 1990, as duplas sertanejas e o forró universitário permitiram a reascensão da sanfona como instrumento de grande presença na nossa música. Hoje são incontáveis os sanfoneiros espalhados pelo Brasil em todos os estados e tocando todos os estilos. A sanfona evoluiu e em 2017 está no seu melhor momento. Hoje toca das salas de reboco às salas de concerto e, principalmente, nas salas das casas de interior. É companheira fiel do trabalhador braçal. A vida sem arte é sem graça, por isso uma sanfona pode levar alegria para uma casa, um vilarejo, um povoado, uma cidade e para todo país.

Há dois anos, percebendo este bom momento em que a sanfona voltou a ter lugar central nos corações do nosso povo, tive a iniciativa de criar uma orquestra de sanfonas. A Orquestra Sanfônica do Rio de Janeiro, da qual sou maestro, conta com músicos amadores e profissionais que vem se aprofundando nos estudos. Meu trabalho é conduzir a parte artística da Sanfônica e orientar os músicos, como um professor a seus alunos. A orquestra faz presença marcante nos teatros e forrós do Rio de Janeiro, estado que tradicionalmente não tem tanta história com a sanfona, se compararmos com o Nordeste e o Sul do país.

Tive a sorte de nascer numa família de músicos e viver a música em casa através de outro instrumento, o piano de meus pais. Quando criança, jamais imaginei empunhar um instrumento de 13 quilos. Minha descoberta se deu no final da adolescência, com a paixão pelo forró e pelo mestre Sivuca. De lá pra cá, foram inúmeros projetos homenageando meus mestres, com quatro CDs solo. ‘A sanfona é meu dom’, título que remete a ‘O samba é meu dom’, de Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro, é o quinto CD e o primeiro totalmente autoral. Este dom é a arte do encontro, das parcerias, da alegria. Sou carioca, amante da cultura nordestina e de tudo o que envolve sanfona, um amante da música feita com amor, leveza e seriedade.

 

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