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“Cada um de nós carrega uma dor, ou várias – mas devemos ser mais do que a dor. Somos escolhas. “

Manoel Thomaz Carneiro fala da determinação em superar as dificuldades e ser feliz, sem se deixar definir pelas circunstâncias

No detalhes, Manoel com a mãe, Virgínia, Gisela Amaral e Clara Magalhães

Há muitos anos, li um pensamento de Freud que legitimou o que sempre pensei intuitivamente. Ele dizia que umas poucas palavras poderiam ser, por vezes, mais eficazes do que muitos medicamentos tranquilizadores.

Construí minha carreira como orador. Senti, em meus estudos, como o conhecimento sobre nossos funcionamentos psicológicos me apaziguou. Essa compreensão tirou de mim imprecisões, dúvidas e me fez também suprimir nomes errôneos com que eu havia batizado vários aspectos do meu modo de ser.

Baseado nesta experiência pessoal, há precisamente 29 anos, decidi criar um curso dentro do qual  pudesse esclarecer questões psicológicas. Nessa trajetória de professor e palestrante, é  lógico que acumulei conhecimentos e insights; e vim reformulando conceitos. Assim, os conteúdos do meu dizer foram aperfeiçoados.

Em determinado momento, comecei a sentir que poderia ampliar o alcance da palavra através da credibilidade que conquistei na carreira. Jamais busquei unanimidade. Almejar a aprovação absoluta é embotar a criatividade. O importante é ter ética naquilo que se faz e procurar se aprofundar na vocação. Acredito que, quando se deseja mesmo realizar algo, nos fazemos atentos aos sinais, às oportunidades e até às limitações.

Atento, há alguns meses ouvi de uma aluna a sugestão de entrar em contato com uma pessoa que queria criar um espaço cultural na Barra. Deste encontro de vocações e ideais foi criado o Espaço Arte, Cultura e Psicologia Liliane Santiago & Manoel Thomaz Carneiro. Nele, além dos cursos – meus e de convidados – que ali são ministrados, imprimimos a ideia de agendar palestras com profissionais das áreas humanas e depoimentos de quem pudesse transmitir um saber ou uma vivência.

Na última quinta organizamos um depoimento, de intuito beneficente, de Clara Magalhães. Nascida numa família tradicional de São Paulo, Clara nos falou com serenidade sobre os bastidores de sua vida, mostrando a realidade que muitas vezes contradiz as imagens idealizadas de uma menina bela e rica. Contou da imensa dificuldade financeira que seu pai teve em determinado período, descreveu a drástica mudança de contexto após um acidente que o marido, um atleta, sofreu – uma queda do cavalo – e que o impediu de caminhar para o resto da vida; falou das tragédias familiares que enfrentou. Ela descreveu não só uma potente fé religiosa, como muitos lhe atribuem, mas expressou uma capacidade essencial para existir com grandeza diante das tramas que o destino apresenta.

Clara revelou, através do modo de viver, que é necessário encontrar novos significados para permanecermos capazes de dar uma destinação construtiva à existência.

Naquela mesma quinta-feira, consegui reunir na nossa sala outras duas mulheres que não se deixaram definir pelas doenças. Gisela Amaral estava lá, apesar das 14 metástases, demonstrando que a vida resiste e se realiza a partir da saúde mental. Carregamos o câncer, mas não somos o câncer – assim como cada um de nós contém uma dor, mas não precisamos ser a dor. Carreamos também  dificuldades, mas somos maiores do que elas.

Quantas pessoas se comportam como um pião em torno do que acontece, girando tontas, sem sair do lugar. Se eu me fixar apenas num ponto, perco a dimensão das perspectivas que o todo da vida contém. Olhar apenas para um detalhe faz com que, com o tempo, se perca a visão de outros pontos.

A terceira pessoa presente era a Virgínia Diniz Carneiro, minha mãe, que teve poliomielite aos 10 meses de idade, na década de 1920,  época em que a medicina era pouco desenvolvida. Sofreu numerosas cirurgias a partir dos cinco anos de idade para retirar, digamos, a “parte aleijada”. Foram procedimentos que só pioraram a condição da perna afetada.

Minha avó queria que ela fosse freira e a levou a um padre, na intenção de convencê-la. Minha mãe disse ao padre que era uma romântica e que iria se casar e construir uma vida. A paralisia jamais definiria seu destino. Aos 16 anos, num baile em Belo Horizonte, percebeu que havia um rapaz de olhos azuis que a fitava. Sentada numa cadeira, pensou: “se eu ficar aqui, jamais vencerei o que deve ser vencido”.  Para ela, mancar não significava um defeito na personalidade. Ela atravessou o salão do Minas Tênis Clube. Enfrentou os limites, recusou a autossabotagem. Saiu mancando de um lado a outro e se mostrou uma mulher inteira. Assim conheceu meu pai, homem admirável, capaz de amar e desejar, capaz de ver o perfeito no imperfeito. Dessa união, nasceram seis filhos e eu sou o temporão.

Digo que minha vida é fruto dessa coragem, dessa fé em si mesma. Se ela fosse freira – sem vocação, se submetendo a um complexo e a uma insegurança – teria amputado a realização dos sonhos. Além de tantos impedimentos que ela se imporia, não teriam brotado as seis vidas que ela gerou.

Essas três mulheres – Clara, Gisela e Virgínia – são de fato referências vivas de segurança, coragem e fé. Coragem não é ausência de medo, é um opositor a ele.

Cada um de nós carrega uma dor, ou várias – mas devemos ser mais do que a dor. Somos escolhas. A vida define fatos e contextos, mas em hipótese alguma determina como seremos.

O que você vai ser quando crescer?

A partir de que aspecto você se define?

Elas escolheram vencer e existir para construir a vida que vale a pena ser vivida.E quanto a mim?  Quero existir para despertar a visão das possibilidades em todos os que depositam as esperanças no meu dizer.

SOMOS POSSÍVEIS NO QUE PARECE IMPROVÁVEL.

*Manoel Thomaz Carneiro é professor e psicanalista.

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