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“É preciso soltar a bagagem pesada dos ressentimentos para voar”

Manoel Thomaz Carneiro propõe: o melhor é desistir do apego às mágoas e usar nossos recursos e forças para nos sustentar nos propósitos da vida

 

Nesta semana, li a história de um ex-aluno do Colégio Santo Inácio, Rio de Janeiro, que mergulhou nas drogas e acabou na Cracolândia em São Paulo. Graças às redes sociais, os antigos colegas de Carlos Eduardo conseguiram localizá-lo.

Encontraram um homem de 46 anos, que não escovava os dentes há 8 anos e só tomava banho de dez em dez dias. Os contemporâneos de Carlos Eduardo o reconheceram num vídeo em que fazia críticas à política de repressão ao crack do prefeito Doria.

Esta história me levou a pensar em aspectos do equilíbrio humano.

O tema de crescimento das estruturas psíquicas pode ser pensado de maneira simbólica. Na terra, aquilo que precisa ficar suspenso, sem cair, necessita de algo que o sustente. A cadeira tem pés; os edifícios e os viadutos, alicerces. Até uma caneta, se a soltarmos da mão, cai.

Nossos sentimentos obedecem ao mesmo princípio. Para que possamos sustentar a satisfação, a alegria, o amor, a vida, temos que aprender a segurá-los. Senão, caímos por terra. O idioma mesmo comprova: a gente CAI em tristeza, em melancolia. Caímos nas versões sabotadoras do existir. É como se uma lei da gravidade atuasse continuamente em nós.

O que nos sustenta?

Nunca nos ensinam exatamente. Falam que temos que ser felizes, produtivos, equilibrados, mas os modos de se construir esta estrutura que nos capacitam são difusos.

Falam do dinheiro, da fama, do acesso aos prazeres como meios de satisfação. No entanto, quantas pessoas abastadas caem em melancolia!

Carlos Eduardo vem de uma família de recursos. Seus amigos conseguiram convencê-lo a retornar para o Rio para tentar a recuperação. O destino de fato deu mais uma chance a este rapaz através deste grupo tão humano.

No entanto, comecei a pensar nas pessoas que perdem a mão da vida e se soltam. Largam os braços da sustentação de si mesmos.

Pensei nas bagagens pesadas, repletas de ressentimentos, incompreensões; pensei nos apegos excessivos que as pessoas carregam na viagem da existência. Com o tempo, o peso exaure a força de sustentação e gera a impotência para se manter na verticalidade. Extenuada, a pessoa perde o equilíbrio e se afunda nos porões das melancolias, se torna incapaz reagir à queda e enfrentar a gravidade.

O que nos sustenta? Pergunto de novo. O que nos mantém de pé para enxergarmos os horizontes que estão além das dores?

Costumo dizer que as pessoas não estão puramente deprimidas, mas sim distraídas – porque não sabem como olhar os acontecimentos da vida. Desconhecem o que de fato poderia resgatá-las. E sem saber como gerar sentimentos motivadores, permanecem na queda.

É necessário, na nossa existência, perdoar o destino, perdoar as histórias e com isso soltar as mãos ocupadas em segurar bagagens pesadas. Mãos ocupadas com as desilusões estão impedidas de nos sustentar de fato na vida.

Os macaquinhos se seguram nos galhos para não cair porque estão livres  de desmotivações. Os pássaros batem asas para chegar às  direções desejadas. Sem intenção de voar, não há voos.

O rapaz resgatado da Cracolândia precisa, para potencializar essa nova chance, ressignificar o propósito da própria existência. Precisa soltar as mãos dos pensamentos e dos sentimentos que os levaram a esta queda.

Precisamos, na vida, desistir do apego às mágoas. Desistir da pirraça permanente diante de algo que tenha acontecido de doloroso ou até brutal. A pirraça é o nó que nos prende. Nó é a neurose ao apego àquilo que nos emperra.

Ninguém se levanta sem ter um propósito.

Ninguém sai de um ponto a outro sem saber para onde deseja ir.

Ninguém realiza, constrói, sem atribuir bons significados ao que faz na vida.

Vamos evitar as Cracolândias existenciais. Vamos evitar que a vida seja um vício na tristeza, na melancolia, no pântano estagnado de onde não se sai. Ali, na imobilidade, no peso da bagagem do ressentimento, se entorpece o olhar da continuidade.

Sempre torço para que as pessoas perdoem o destino, para que possam soltar as revoltas inúteis, o ressentimento.

Perdoe e se liberte. É muito bom estar nesta verdadeira liberdade.

*Manoel Thomas Carneiro é professor e psicanalista

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