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“Quem está disposto a ser palhaço?” – um curso ensina a fazer rir para alegrar pessoas hospitalizadas

Em Campinas, 2º Congresso de Palhaços Humanitários, de 7 a 9 de setembro, abre 30 vagas para ‘curiosos’. É iniciativa da ONG Hospitalhaços

 

O Clown, ou Palhaço – chame você como quiser – está para além do senso comum de “aquele que faz rir”. O palhaço é aquele que encara as mazelas sociais, identifica-se com elas e, primeiramente, aceita-se. Provoca então a identificação do outro e o riso como consequência. O palhaço é como um resgate dessa vida que vem se tornando engessada; ele vem como a tentativa de tornar a si e ao outro sensíveis novamente. É a poesia em movimento, é aquele que se apropria da vida e a transforma.

Nossa arte, com o passar dos anos, foi sendo inserida em espaços diversos de atuação: circo, teatro, rua, empresas, hospitais, campos de refugiados e até mesmo zonas de conflito. Estamos em uma sociedade cada dia mais carente, e, ao contrário do que você possa imaginar, essa carência à qual me refiro vai muito além da falta de bens materiais e de consumo. Estamos carentes de afeto, de humanidade. Por isso, é mais do que fundamental a inserção do palhaço em todos os espaços possíveis, para rompermos com a mecanização e resgatarmos a nossa condição de alteridade.

Todos podem ser palhaços? Podem, mas a questão central não é essa. Troquemos essa pergunta por:  “quem está disposto a ser palhaço?”. É necessário, para ser palhaço, reconhecer-se como um ser vulnerável, imperfeito, passível de erros. É a contra-mão da lógica social; portanto, esse processo de descobrir-se é muitas vezes doloroso mas necessário.

É preciso, então, dedicação e uma grande abertura para nos permitirmos explorar a nossa potencialidade enquanto corpo, observar modos de agir, pensar, falar; o estudo, tanto prático como teórico, é fundamental para aquele que quer se dedicar à arte da palhaçaria, com fim profissional ou voluntário. Aliás, o fato de desenvolver um trabalho voluntário não exime da necessidade de se dedicar e estudar. Afinal, será desenvolvido um trabalho com pessoas em estado de vulnerabilidade, e a preparação é fundamental.

Ser palhaço é uma abertura para o mundo, para o outro. Quando sou palhaço, me mostro de peito aberto e sem nenhuma reserva para que as pessoas possam me ver assim como sou – e, aí, identificarem a si mesmos. Não “faço palhaço”. Sou palhaço. É uma condição, a de permitir que as pessoas zombem e riam de mim, e que esse riso venha como um abraço para esses meus fracassos, revelando-me enquanto ser humano.

O palhaço no ambiente hospitalar rompe com alguns paradigmas. Aquele espaço monocromático, rigoroso, que carrega uma tensão própria daquelas situações ganha uma outra perspectiva com a presença do palhaço. Existe ali um olhar de horizontalidade, onde a relação hierárquica é rompida; o que prevalece é a ação realizada a partir do momento em que o artista passa pela porta. Isso permanece, mesmo que aquela ação tenha durado alguns instantes. Fica viva na memória daqueles que a experimentaram.

O 2º Congresso de Palhaços Humanitários acontece nos dias 7, 8 e 9 de setembro, no Centro de Eventos Inácio Loyola – Instituto Padre Haroldo, em Campinas. O evento oferece hospedagem, alimentação e certificado. As inscrições e as informações estão disponíveis no site www.hospitalhacos.org.br 

*Luiz Godoy é um dos professores do curso de formação de palhaços humanitários da ONG Hospitalhaços. É bacharel em Ciência do Esporte,  Mestrando em Ciências Humanas e Sociais Aplicadas na Daculdade de Ciências Aplicadas da UNICAMP. Petrence ao Núcleo de Estudos e Pesquisas da Arte do Palhaço (NEPAP) e ao Grupo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas Aplicadas ao Jogo (GIEPAJ).  É artista formador e tutor do treinamento de palhaços da ONG Hospitalhaços
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