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“Ser mãe é se (re)fazer todos os dias” – artigo de Renata Bento

A psicóloga levanta as questões da maternidade, hoje "lugar complexo", com por muitos fatores como a inserção no mercado de trabalho

 

Ainda se faz mãe como antigamente?

– Mamãe posso ir? – Quantos passos? – Dois passos.

– Mamãe posso ir? – Quantos passos? – Três passos; depois quatro passos e por aí vai.

Era assim que começava a brincadeira na infância; muitas vezes repetida até que os passos se tornavam mais largos e se podia ir mais longe.   A criança cabreira marchava, mas olhava para trás só para checar de rabo de olho se a mãe estava lá observando o seu caminhar. E nesse balançar avançava e recuava, ia e voltava, como se a garantia de ida fosse a presença constante do olhar estável e firme da mãe. E não que é isso mesmo! É o olhar consistente de quem diz: “pode ir que estou aqui cuidando de ti” que vai coadjuvar o torna-se adulto.

Ser mãe é se (re) fazer todos os dias. É um trabalho grande de um vínculo tão intenso que se faz crer que existe uma parte de si mesma que circula em outro ser. Só que ao mesmo tempo essa parte de si mesma não é você, e sim outra pessoa.  Esse novo ser vai crescer, desabrochar e dentro do processo de desenvolvimento, se tornar autônomo. Parece simples, mas lá dentro, no mundo dos sentimentos, ocorre um cenário quase misterioso de experiências subjetivas.

O processo da maternidade se inicia muito antes de ver o filho fisicamente, começa pelo bebê imaginado. A futura mãe, grávida, entrará num turbilhão de sentimentos onde vivências narcísicas e edípicas serão reativadas para que surja uma mudança subjetiva de lugar de filha para o lugar de torna-se mãe, abrindo espaço para a maternidade.  Durante a gravidez, a mãe imagina e cria expectativas a respeito da criança.  E isso é essencial. Mas será no momento do nascimento que a mãe estará simultaneamente com seu bebê real e imaginário no colo. E é aí que o bicho pega, porque a realidade se impõe; são muitas as demandas internas e externas para dar conta. Um bebê tem necessidades diferentes de uma criança maior e de um adolescente; cada fase tem sua peculiaridade.

A mãe, essa figura por vezes idealizada, também é mulher e é feita de carne, osso e sentimentos. E é nesse processo de crescimento dos filhos que ela terá a necessidade de se reinventar a todo o momento, em cada etapa da vida de um filho tem também uma mãe que precisa acompanhar a mudança.

A maternidade sempre foi uma espécie de lugar complexo, sobretudo na atualidade com a maior inserção da mulher no mercado de trabalho, a diminuição da rede de apoio familiar, a mudança social do papel feminino e o avanço tecnológico. Antes a mãe ficava em seu espaço aparentemente seguro, cuja função era prover afetivamente a prole com o pai que a ajudava. Tudo isso para dizer que hoje as mães precisam lidar com situações muito diferentes de outras épocas, inclusive na própria relação com os filhos.

Os laços afetivos mãe e filhos também vêm passando por alterações significativas.  O mundo mudou, as brincadeiras mudaram, mas o que se espera de uma mãe também mudou?

Se antes mães e filhos brincavam de “mamãe posso ir” e daquelas brincadeiras gostosas de criança, hoje esse espaço se ampliou para as interações digitais, para uma comunicação mais ampla e diferenciada; é através de mensagem de texto, de mensagem de áudio, e da experiência virtual que as mães e os filhos se comunicam e ensaiam o movimento de se separar e se juntar. Saber lidar subjetivamente com essa nova forma de comunicação e interação é mais um novo desafio para a mãe atual.

Parece que o que permanece dessa mudança toda é o fato de as mães ainda desejarem que seus filhos sigam por bons caminhos e façam boas escolhas e por fim se tornem autônomos o suficiente para iniciarem seus próprios projetos. Mas então fica a pergunta, e as mães continuam as mesmas?

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