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“Quem ama o ideal fica impossibilitado de amar o real”

No artigo de Manoel Thomaz Carneiro, a reflexão sobre o amor real que supera o ideal inexistente

 

Em janeiro, ministrei um curso de quatro aulas que se chamou Os Contos de Fadas Originais e a Psicanálise.  Cada aula estava estruturada sobre um conto.

Primeiro é preciso dizer que os contos que ouvimos na nossa infância são elaborações de outras histórias, que remontam aos séculos 16, 17 e 18. Alguns deles tinham fundamento em fatos reais! É bem curioso descobrir a origem de cada um deles..

A Gata Borralheira, por exemplo: na verdade, é um conto chinês. A mocinha, ao se  preparar para o baile, só encontra um único par de sapato, menor que seu pé. Para calçá- lo tem que cortar os dedos dos pés!

Aqui, entre muitas interpretações e significados, chamo a atenção para a ideia do amor adulto. No cerne deste conteúdo dramático está a maturidade do príncipe, que é capaz de amar a jovem apesar da mutilação. É capaz de amar o perfeito dentro do imperfeito, o encantamento que a realidade da vida pode conter.

Para amarmos a vida, temos que saber encontrar um encantamento apesar das mutilações .Algo para admirar.

Este conto também discorre sobre a segurança feminina. Apesar de socialmente inferior e rejeitada pelas irmãs, ou seja, mutilada da capacidade de caminhar facilmente pela vida, ela se lança no mundo, usando a segurança pessoal que permite a busca de seu sonho na vida, apesar dos percalços. E nos revela uma coisa importante: o outro também nos enxerga através da forma como nos lançamos. Ela se faz Cinderela. O príncipe a enxerga e é capaz de amá-la. Porque ela se ama!

Os contos eram narrados, muitas vezes, nas festas das cortes e o grande prazer dos nobres estava em refletir sobre as mensagens que cada um trazia.

Muitos contos nas suas versões originais, sem as magias açucaradas da Disney, provocam estranheza para quem conhece a narrativa literal. São, por vezes, histórias sem soluções encantadas. Mas, apesar do aparente desencantamento, eles contêm a chave para sabermos ser no real da vida.

O nosso arbítrio, diante do destino às vezes cruel, é o instrumento para darmos continuidade apesar dos pesares. A vida dificilmente acontece como sonhamos. Mas podemos acontecer nela através das nossas escolhas. A nossa liberdade absoluta diante da vida está na escolha de como nos colocar em cada fase ou aspecto da vida..

Muitas mulheres mergulham naquela autoimagem Borralheira. Um auto olhar depreciativo. Elas se projetam na vida desse jeito. Outras constroem um caminhar amoroso apesar das mutilações.

Há sempre um modo de se calçar com amor as imperfeições.

E há homens que, para se envolverem com alguém, estabelecem a perfeição como critério. Esses, diante das inevitáveis doze badaladas, se afundam na incapacidade de amar verdadeiramente a vida,  as pessoas e a si mesmos. É uma destinação de amarguras e melancolias.

Outros tantos sabem ser verdadeiros príncipes encantados, porque sabem olhar e encontrar o que admirar em si, nos contextos e no outro.

Pensemos filosoficamente a palavra admirar: ação de mirar a Deus em si e no outroO que isso nos fala? Que podemos encontrar, diante de tantas imperfeições, uma razão para AMAR. A razão está na liberdade de olhar o belo de cada um, de si mesmo e de cada fase da vida..

Todos os dias temos que encontrar uma nova razão para que o amor prevaleça. E quem se ama sabe escolher a melhor versão do olhar.

*Manoel Thomaz Carneiro é professor e psicanalista. Escreve às segundas-feiras no site Márcia Peltier.

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