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“O que conduz a gente? É o propósito”

O psicanalista e professor compara a vida a uma casa, em que cada espaço tem seu propósito

 

Tenho uma aluna nos meus cursos chamada Patricia Secco. Ela é artista plástica e, além das telas – que ela expõe com frequência, inclusive recentemente em Londres -, também fotografa instantes do Rio de Janeiro e de todas as cidades que visita.

O interessante é que as imagens evocam sempre um flagrante que tem como pano de fundo uma história.

Esta acima, que recebi por whatsapp, é o registro de um homem que todos os dias leva as cadeiras para a barraca do “patrão” na praia de Ipanema, em frente à rua Vinicius de Moraes . O cão o acompanha: é o assistente neste vai e vem cotidiano.

Esta cena me transportou à poesia que as imagens dos vínculos afetivos transpassam. Corro no calçadão da orla e sempre me comovo com os ciclistas acompanhados dos bebês, das crianças, dos animais de estimação; já vi gatos, papagaios, coelhos. Vi em Paris as cenas lúdicas dos que pedalam suas bicicletas com flores nas cestas, como para colorir o cinza do inverno.

Somos seres relacionais e, como afirma a psicologia, quanto mais vínculos estabelecemos com todas as espécies de vida do nosso planeta, mais nos sentimos integrados ao nosso habitat.

Vínculos com seres vivos fazem com que nos sintamos vivos.

Moro num apartamento repleto de plantas nos pátios e no terraço. Em seus galhos, muitos pássaros fixaram residências livres; recebo a visita de borboletas que parecem saber que sou um anfitrião que não oferece nenhuma ameaça. Adentram no meu quarto bem-te-vis,  pardais e pássaros de lindo colorido. E isso tudo em Copacabana!

Estes elos me fazem sentir integrado à vida. E o que é afinal se sentir integrado à vida?

É se sentir atraído pelo elementos que a compõem. Já pensou que a vida pode ser comparada a uma casa? Moramos num espaço e, quanto maior for sua identificação com ele, mais você se sente aconchegado.

Pois é. A vida é também um espaço para existirmos e nela morarmos. Assim como uma casa, apresenta seus confortos, mas também problemas.

Não existe, afinal, casa sem problema algum. Um paraíso irreal. Há sempre algo para consertar, há sempre surpresas, há sempre algum canto que, mesmo arrumado, não representa o ideal.

Uma casa contém confortos e desconfortos. A “casa-vida” também.

A luz do meio-dia sempre revela imperfeições. Na casa-vida, sob a luz muito clara das percepções, também.

Já pensou no susto que se leva quando se olha o detalhe do detalhe?

Por isso, às vezes, é melhor olhar o efeito do conjunto e nele achar propósitos.

Sala para estar, receber, conviver. Quarto para fechar os olhos e descansar do real e sonhar, toilettes para eliminar o que deve ir embora e para cuidar do que deve ser mantido. Espaço para criar refeições e para se alimentar. O canto para amar. E muitas janelas para olharmos além.

Sem propósitos, os espaços perdem a função.

Da mesma forma, um espaço de vida sem propósitos perde sua razão de ser e se torna um eterno consertar enguiços.

O homem da imagem usa os cômodos da vida no vai e vem, impulsionado pelo propósito, e assim passeia pela existência acompanhado de sentido e do afeto. Sobre duas rodas se equilibra porque tem direção.

Alguns, sentado nos bancos dos carros, podem achar aquela cena um nada. Mas, na verdade, o “tudo” está dentro dele, naquilo que o move.

Às vezes, a cena que parece o “tudo” está esvaziada de propósitos. O carro conduz o corpo,  mas a alma está sem saber para onde ir. Criar vínculos é se envolver e é neste aspecto que se sente em sintonia com a vida…

Estabelecer vínculos com as coisas e as pessoas vivas, com tudo e todos que estimulam a percepção do crescimento.

Viver é crescer na ternura da ampliação de capacidades e laços. Vida é movimento e envolvimento com as formas de vida e com o que se faz. Vínculos rompidos ou desgastados anunciam a necessidade de novos. Novos significados. Novas metas. Renovar, ressignificar é a gestação contínua do existir.

Nietzsche escreveu: “E os que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música”. A melodia está nas combinações das notas escolhidas.

O que conduz o ciclista?

Apenas as pernas?

Será?

Algo dentro dele o leva à frente, igual o cão companheiro. Vislumbram juntos sentidos. Vislumbram direções.

Patricia Secco com certeza pedala, sabendo enxergar instantes que, somados, compõem a melodia pessoal. Ela com certeza escuta a música que a embala.

Não escuto os porques dos pássaros, mas escuto o canto.

Nietzsche tem razão: quem não escuta a melodia dos propósitos e não faz parcerias na dança, pensa que viver bem é uma dança insana.

Por minha vez, gosto de nomear. Sou letrista das cenas que observo, das pessoas que amo e das ideias que me movem! Assim, Patricia e eu decidimos criar um livro, combinando a melodia das cenas com as letras dos pensamentos.

Aguarde. Estamos a pedalar.

E você? Com que melodia você baila na vida ?

Há muitas.

É só aprender a escutar.

A se escutar.

 

*Manoel Thomaz Carneiro é psicanalista e professor

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