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“Perdoa-me por me traíres”, uma chance de pensar limites e permissões do desejo

Manoel Thomaz Carneiro parte da peça de Nelson Rodrigues para comvidar: vamos buscar a melhor versão de cada um de nós

 

 

O mundo anda conturbado e as premissas de uma civilização equilibrada foram desprezadas. O susto, que deveria ser um estado em nós apenas episódico, se tornou permanente. Estou falando do susto do mal, legitimado como algo do cotidiano.

Nesta semana uma amiga, reuniu, como líder, uma turma para ir ao teatro. A peça era de Nelson Rodrigues, autor que considero visionário, quase mediúnico. Lá fomos nós para a charmosa Casa de Cultura Laura Alvim, situada à beira mar, em Ipanema. No seu teatro, está em cena uma montagem de Perdoa-me por Me Traíres.

Confesso que esperava uma montagem clássica e me vi diante do excelente inesperado. É muito bom quando a arte trai positivamente nossas expectativas. Aliás, é sempre muito bom que o momento nos “traia”, mostrando-se num contexto mais inteligente e belo.

A concepção do diretor Daniel Herz é criativa e impecável. Nela, a essência do texto está preservada e o elenco, afinadíssimo.

O autor, Nelson Rodrigues, traz à tona os porões da humanidade. Viajei nos seus diálogos intensos. Materializa, através das palavras, muita coisa que a moral pode até condenar, mas que existe no mundo subjetivo de todos nós. A vontade de trair, o desejo de humilhar, a gana de matar, o impulso de se vingar estão presentes ou latentes em nossos pensamentos. Só que, para vivermos civilizadamente, nem tudo que o pensamos pode ser concretizado.

Estamos longe de conseguirmos zerar certos desejos. Mas o equilíbrio se estabelece na capacidade de dar civilidade às nossas decisões. Freud, em sua grande obra O Mal- Estar na Civilização, afirma que a cultura produz um mal-estar nos seres humanos, na medida em que há um paradoxo quase intransponível entre as pulsões de cada pessoa e as exigências da civilização. Ou seja, para que a civilização possa se desenvolver, cada um tem que assumir a renúncia de algumas satisfações.

Nossos porões internos, muitas vezes, são inimigos da civilização. Neles, existem tendências destrutivas e antissociais. Aquele que perde esse equilíbrio, está colocando o desejo acima da cautela.

A evolução, é lógico, implica romper com dogmas opressores, regras excessivamente desumanas. E alguns desses dogmas vêm sendo efetivamente rompidos desde o século 20 e no atual,. Liberdades sadias conquistaram legitimidade, para o alívio emocional da humanidade.

Mas, diante da liberdade, como saber o que é certo ou errado? Que impulsos, pensamento e ações precisam ser reprimidos ou manifestados?

Levanto aqui quatro perguntas básicas, que podem nortear uma reflexão sobre interdição ou permissão.

Diante do desejo, talvez a gente possa se perguntar:

  • Eu quero?
  • Eu posso?
  • Eu prejudico a mim?
  • Eu prejudico realmente a alguém?

Esses quatro itens, parece, vêm sendo desprezados no contexto atual. Em todas as searas, nos defrontamos com a constatação de que o mundo está regido por um princípio psicótico, no qual cada um diz para si próprio: “Se eu quero, eu posso”. Busca a legitimidade de qualquer desejo.

Para quem deseja refletir sobre civilização e desejo nas paisagens secretas do existir, essa peça de Nelson Rodrigues é um grande estímulo. As premissas da existência instintiva estão materializadas nesse texto excepcional. E a montagem soube transmiti-las.

Ao final, soube pela amiga organizadora da nossa noite que Bob Neri encarava seu primeiro papel como ator, sem abandonar uma bem sucedida carreira de arquiteto.

Isso me levou a pensar como é bom, às vezes, não trair a si mesmo e permitir-se ampliar a própria existência. Sem prejudicar a si e a ninguém, ele encarna o deputado rodrigueano.

A peça oferece a chance de pensar em limites e, no seu oposto, na permissividade do mundo atual, um mundo que envolve aspectos tão complexos quanto os narrados na cena localizada em 1957. Elementos até hoje presentes na sociedade!

Atos que prejudicam o outro, ou que prejudicam a si mesmos precisam ser muito bem olhados, encarados, reconhecidos. É urgente a necessidade de repensar determinados comportamentos cada vez mais comuns no mundo que vivemos.

O elenco brilhante da peça é formado por Bebel Ambrosio, Bob Neri, Clarissa Kahane, Ernani Moraes, Gabriela Rosas, João Marcelo Pallotino, Rose Lima, Tatiana Infante e Wendell Bendelack. A atuação deles não nos trai. A peça fez emergir um pensamento que mantenho como direção para a minha forma de ser. Uma ideia que me faz atento aos meu porões:

Se amar é criar a melhor versão de si mesmo.

Este princípio deve ser acatado para depois não precisarmos dizer: perdoa-me por trair a mim mesmo.

*Manoel Thomaz Carneiro é professor e psicanalista

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