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‘Paterson’, um filme que traz reflexões sobre a poesia do cotidiano

“O que colore o nosso existir é a profundidade inteligente do olhar, a capacidade de usar a criatividade".

Toda sexta feira, abro a revista RioShow do jornal O Globo e percorro as críticas dos filmes que entram em cartaz. Posso dizer, assim como aquele aplicativo, que Adoro Cinema!

Um filme, quando é interessante, funciona como uma espécie de transe no qual saio completamente da minha vida cotidiana e me ponho a refletir sobre a realidade projetada.

O cinema é uma arte que tem, para mim, um efeito de sublimação. Há quem assista o filme de modo literal e, ao final, só pronuncie o “gostei” ou “não gostei”. Mas um enredo traz sempre um desfile de situações, sentimentos e conflitos, que provocam reflexões. Delas, saem conclusões para as nossas vidas. Numa dessas , podemos até avançar na consciência dos nossos erros e acertos no modo de existir.

Fui assistir Paterson do diretor Jim Jarmursch, considerado um cineasta por filmar as histórias que cria.

O enredo segue a vida  de um casal jovem, que mora na cidade de Paterson, nos Estados Unidos, um lugar pacato onde há pouco entretenimento e a vida, de certa forma, acontece como e o filósofo francês Bobin: ele diz que há lugares onde se não tomarmos cuidado, acabamos por viver de modo sonolento e, neste torpor, não conseguirmos perceber a riqueza do existir.

A história se centra neste casal que se ama e deseja muito.

Ele, o jovem, se chama Paterson, igual à cidade, e é motorista de ônibus. Ela, uma dona de casa que vive naquele universo doméstico. A rotina se repete como uma coreografia de mesmice, que até nos entedia.

Ele acorda todos os dias por volta das seis da manhã e olha com desejo e ternura para a mulher que permanece no sono. Vai para o trabalho – dirige um ônibus municipal. Ela passa os dias em casa.

Diante desse contexto, posso até adaptar a letra da música do Chico Buarque: todo dia ele acorda às seis horas da manhã,  me sorri um sorriso pontual e me beija com a boca de hortelã…

No entanto, estes personagens sabem driblar o risco da sonolência no existir, sabem driblar o tédio. Ele pensa através da poesia de tudo o que escuta dos passageiros e de tudo o que vê pela janela do ônibus. Ela colore o cotidiano através de inspiradas criações de roupas, cortinas, toalhas e bolos, tudo em preto e branco.

Essa é uma metáfora perfeita. O cineasta apresenta um símbolo da boa existência: o que colore o nosso existir é a profundidade inteligente do olhar, a capacidade de usar a criatividade.  Ali, revela-se claramente que não adianta vivermos dentro de um mundo colorido e intenso se deixamos de conseguir dar um significado na nossa existência.

Criar, trabalhar e dar sentido ao que faz nos leva ao arquétipo do divino, que permanece na existência através do orgulho da criação  e do amor ao que realiza.

No dia 1º de maio se comemora o Dia do Trabalho. Vejo esta data como uma homenagem a todos os que deixam uma boa marca no mundo através do que realizam, seja qual for o papel que desempenham.

Ele, Paterson, é mais do que um motorista. Ela é mais do que a mulher dele.

Eles representam o encontro do banal com o extraordinário. Quem não conhece alguém que, diante de Paris, sente tédio? Que diante de Nova York é invadido por uma melancolia?

O segredo deste filme está neste lugar filosófico. É como as águas da chuva que somem aos nossos olhos, mas não desaparecem, só se escondem em algum lugar.

O segredo da felicidade daquele casal se esconde aos olhos de muitos espectadores. Mas está ali diante de cada um que queira algo mais do que dizer “gostei” ou “não gostei”.

Assim é na vida. Gostei ou Não Gostei? Fiz o poema a seguir inspirado neste filme. Semelhante ao Paterson, nas linhas da poesia existe algo a ser descoberto. “Decifra- me ou devoro-te”, já diziam os gregos.

Se deixarmos de decifrar a capacidade de existir bem na vida, as horas do destino irão nos devorar.

 

*Manoel Thomaz Carneiro é professor e psicanalista

 

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