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O pai nos dias de hoje – por Marcela Ouro Preto

A psicanalista faz um balanço da figura paterna frente a novas realidades.

 

O mundo mudou, as famílias mudaram e o papel de cada um na família também se transformou.  Não faz tanto tempo assim, o lugar dos cuidados das crianças cabia, em geral, às mães ou a alguma substituta do sexo feminino. No entanto, a realidade está diferente – e, a meu ver, melhor. A inserção mais intensa da mulher no mercado de trabalho e o movimento no sentido de buscar uma maior igualdade na distribuição das tarefas domésticas levaram a uma ampliação do papel dos pais no cuidado dos filhos.

Ganharam todos com isso. As mulheres, pois viram-se acompanhadas não apenas nas tarefas práticas, mas também na enorme responsabilidade emocional que é criar os filhos. Ganharam os pais, que, agora, envoltos com fraldas sujas, madrugadas insones, papinhas, reuniões na escola, também descobriram uma maior intimidade com seus filhos, puderam aproximar-se e envolver-se com eles de uma forma muito diversa daquele modelo de pai que era apenas provedor. Sobretudo, lucraram os filhos, que viram o vínculo com seus pais fortalecido e isso significa uma vida afetiva muito mais rica.

Quando um bebê nasce, as vidas que estão à sua volta se transformam. Nada fica igual. Parece que está tudo fora de ordem e, para a família que recebe este filho, é necessária uma reinvenção. Seja qual for o formato familiar em que estiver inserido este bebê, teremos uma mãe que precisa se entregar a esta vivência única que é introduzir o seu bebê à vida fora do útero.

Ao participar desse início, o pai desfruta da apresentação do bebê ao mundo e do mundo ao bebê e fortalece, desde o princípio, o seu vínculo com ele. Ele pode ser essencial também oferecendo suporte físico e emocional para que a mãe, que surge com o nascimento do filho, possa viver de forma mais plena esse momento de fragilidade tanto dela quanto do bebê. Quando o pai se embrenha nessa tarefa junto com a mãe, podendo respeitar o espaço que cabe a cada um, o trio, pai, mãe e bebê, poderá viver as alegrias e as agruras desse momento único que ficará marcado para sempre nas suas mentes. Todos se enriquecem com esta experiência emocional.

Com o passar dos anos, os pais têm que se adaptar às mudanças que se apresentam não apenas na criança, mas também neles próprios. Cada etapa do desenvolvimento nos traz surpresas e aprendemos sobre elas e sobre nós mesmos. O pai de hoje, tão mais participativo, está envolvido com este crescer, presencia os ganhos dos filhos, seus conflitos emocionais, pode entender melhor tantas das pequenas coisas que são tão importantes no universo infantil. Não acompanha apenas de longe, ele faz parte do dia a dia, que nem sempre é fácil. Pode exercer a dita ‘autoridade paterna’ com mais propriedade e de uma forma amorosa, ajudando a dar limites e, ao mesmo tempo, capaz de compreender seu filho de maneira mais plena.

Me ative aqui ao papel do pai propriamente dito, mas, como mencionei no início, os novos arranjos familiares são muitos e, em cada caso, podemos ver soluções diversas sobre como lidar com o novo ser que chega e nos constitui pais e mães. Em todas estas situações,  vemos que o que realmente tem valor é a disposição em se aproximar da criança que está ali e urge para se relacionar. Quanto mais intensos e verdadeiros forem os vínculos que ela estabelecer, mais vasto e rico será seu universo emocional. E isso é o que vale a pena no final das contas!

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