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“Nós, médicos, precisamos ser uma ponte entre a tecnologia e a emoção das pessoas”

Médica especialista em cuidados paliativos conta que sua relação com os doentes é rica em sentimento e proximidade

lorr capa

 Lorraine Veran é carioca, médica endocrinologista com formação em Medicina Paliativa no Instituto Paliar em São Paulo e trabalho no Grupo COI.

Lembro com clareza.

Eu era pequena e assisti à luta de minha avó contra um diabetes insulinodependente, doença mortal na época em que vivia. Foi aí que nasceu um intenso desejo de curá-la de alguma forma daquela clausura imposta pela doença.

Eu a fazia sorrir contando piadas e isto para mim foi minha primeira grande atitude perante o sofrimento, reagindo alguém que cria ações lúdicas para combater o mal de forma eficaz. Ela partiu e deixou em mim a vontade de estudar Medicina e cumprir com uma missão maravilhosa que é curar.

Sou médica há 24 anos, com formação em medicina interna e terapia intensiva. Na última década e meia, acompanho pacientes oncológicos fazendo o suporte clínico durante seu tratamento. Essa opção foi uma virada de página na minha história: hoje sou médica paliativista. Essa mudança de rumo foi como se uma lamparina estivesse sido acesa e iluminado a minha visão sobre a dor.

Os pacientes oncológicos, em especial, são ricos em emoções e um leque delas se abre à nossa frente durante nosso relacionamento. O tempo é limitado e precioso quando se está doente e lutando arduamente pela volta da saúde física e mental.

Nessa caminhada, muitas vezes árdua, entendi que nós, médicos, precisamos ser uma ponte entre a tecnologia desenfreada, tão necessária e que, ao mesmo tempo, pode afastar o conhecido e nobre sentimento de empatia com a humanidade. Ouvir e tocar são verbos importantes e fundamentais na medicina. Na minha visão algo poética e idealista, a palavra e o toque são o menor caminho entre dois corações.

Percebi que me sentia à vontade com estes pacientes, mesmo alguns deles estando na fase final da vida. Acredito fielmente que sempre existe algo importante a ser feito. Há sempre uma vontade não realizada, um desejo escondido, um beijo que não foi dado, um livro que não leu, um carinho que faltou. Isto é viver. E é muito mais que simplesmente estar aqui. Lembro cada rosto emocionado, de cada sorriso, de cada lágrima, de cada momento importante. Estive inteira e atenta às suas dores. A Medicina não é apenas a arte de cura, é também a arte de mitigar o sofrimento alheio quando a tecnologia for vencida pela doença.

Em 2015, comecei a escrever em forma de narrativa minha relação com os pacientes oncológicos, ressaltando que medicina e a literatura são culturas compartilhadas.   O médico escritor tem a seu favor um grande arsenal terapêutico. Existe, inclusive, a Medicina Narrativa, uma técnica que teve grande impulso nos anos 1980 com a professora Rita Charon da Universidade de Colúmbia em Nova York. Essa abordagem ganha cada vez mais adeptos pelo mundo, em países como Inglaterra e Portugal, numa tentativa de resgatar a sensibilidade e a empatia de jovens médicos em formação universitária.

Ao escrever meus contos, entro em conexão com o que mais desejo para as pessoas que enfrentam o inimigo mais cruel da Medicina: o câncer. Desejo que não percam o calor da vida, desejo que possam enfrentar seus dias com mais leveza, desejo que tenham fé em algo que os transforme perante a doença, desejo que o sorriso seja mais constante que o choro, desejo que a cura seja o caminho mais encontrado e que a morte seja natural e digna.

Fazer parte dos cuidados paliativos me fez crescer como pessoa e também desejar que o outro tenha o mesmo direito à felicidade. Esse sentimento é o que todos nós buscamos, desde o dia que nascemos até nossa morte.

Ao contrário dos que muitos podem imaginar, não há sofrimento interno em lidar com tais situações. Há, sim, uma satisfação enorme em poder aliviar e trazer qualidade de vida aos que sofrem.

 

 

 

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