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“Mulheres da Central: Histórias de luta e recompensa”

Uma exposição na Central do Brasil (RJ) traz os relatos do projeto "Me alugo para ouvir histórias"

Vinicius Silva com uma das retratadas

Comumente, o mês de março é tratado como uma comemoração em relação ao Dia Internacional da Mulher, o que não cabe nesse contexto. A data deve ser encarada como um marco na luta das mulheres, um dia de valorização dos direitos conquistados por suas antepassadas, assim como uma oportunidade para a discussão e visibilidade acerca das discriminações de gênero sofridas pelas mulheres todos os dias, impedindo, assim, que retrocessos ameacem o que já foi alcançado até então.

Com esse raciocínio em mente, no ano passado, o Instituto Masan promoveu uma ação e ofereceu serviços diversos para as mulheres, na estação Central do Brasil,no Rio de Janeiro. Nada mais justo, já que o local remete exatamente a esse cenário: mulheres guerreiras, que passam por ali todos os dias, lutando por seus direitos e conquistando seu espaço. Dentre as atividades, estava inserido o meu projeto “Me Alugo Para Ouvir Histórias”.

Tudo que eu queria, naquele dia, era ouvir uma boa prosa. Relatos que me fizessem refletir sobre quantas histórias passam por nós, todos os dias, despercebidas, por estarmos imersos em nossas próprias histórias. Na intenção de descobrir mais sobre o universo feminino, redescobri-me em cada uma delas, numa sintonia contagiante.

Em busca de novas narrativas, aluguei-me para ouvir personagens comuns da vida real. Com o apoio da psicóloga do Instituto Masan, Juliana Benvenuto, as mulheres ainda participaram de uma roda de conversa sobre a tão emblemática celebração. Cada uma falava de si e do seu mundo, mas tudo se harmonizava. Como uma colcha de retalhos, os acontecimentos e as experiências foram costurados até se entrelaçarem, formando um corpo de palavras.

Foi ali, na rua, onde as coisas acontecem, sem roteiro, sem pauta e sem saber quem eu iria encontrar e escutar, que aprendi, um pouco mais, a ser repórter. Mais do que isso. Aprendi a ser mais gente para entender toda essa gente.

Cada vida ali compartilhada, agora, são expostas em imagens, palavras, alma e coração. Com registros do fotógrafo Guga Ribeiro e depoimentos colhidos por mim, 10 mulheres têm, entre os meses de março e abril, a oportunidade de ser protagonistas de suas próprias histórias. Reunidas nas estações do MetrôRio – Central (do dia 20 ao dia 24 de março), Coelho Neto (do dia 27 ao dia 31 de março) e São Conrado (do dia 03 ao dia 07 abril) – as histórias de vítimas de violência doméstica, preconceito, discriminação e machismo se transformaram na exposição “Mulheres da Central” e pode ser vista e lida por milhares de cariocas que, diariamente, embarcam e desembarcam nestas estações.

Esse trabalho de escutar o outro só reafirmou ainda mais minha paixão pelo ofício de escrever e de contar histórias. De tanto ouvi-las, acredito que aprendi a contá-las. Mesmo que a tecnologia nos ofereça cada vez mais opções de trabalhar a reportagem, acredito como jornalista e como gente, que ainda está no homem anônimo a grande história.

Desejo que você, leitor, perceba o que eu senti quando me aventurei a viajar e a enxergar o mundo pelos olhos delas. Fica aqui o meu convite.

Boa viagem pela literatura da vida real!

*Vinícius Silva é jornalista do Instituto Masan, idealizador do projeto “Me Alugo Para Ouvir Histórias” e escutador de histórias do projeto “Mulheres da Central”.

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