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Manoel Thomaz Carneiro: “Coragem está longe de ser ausência de medo. É o contraponto a ele”.

O psicanalista e professor garante que nunca é cedo demais e nunca é tarde demais para começar a recomeçar.

Manoel Thomaz Carneiro / Foto: Jann La Ponte

Manoel Thomaz Carneiro / Foto: Jann La Ponte

 

Quem somos nós? Será que somos o que deveríamos ser? Será que você se pensa como é realmente?

Estas perguntas vieram ao meu pensamento, a partir de uma história muito original que um amigo me contou em São Paulo. Fomos ao bairro de Pinheiros e ele estacionou o carro diante de uma loja de objetos e móveis muito fashion que me chamaram a atenção.

Tudo extremamente interessante e original. Meu amigo, vendo o meu interesse, contou: “Manoel, mais excêntrico do que estes objetos é a preferência do dono deste lugar. Ele tem como estimação dentro desta loja um porco como bichinho de estimação! O mais interessante é que ele o cria desde que o porco era bebê. O porco agora é enorme e passeia neste lugar com a maior desenvoltura… A questão é que o único animal que ele sempre teve contato são os cachorros que passam pela calçada, e alguns que entram na loja com seus donos.”

E o meu amigo continua: “E aí é que vem o mais doido. O porco, diante dos cachorros, se comporta com alegria, abana o rabo e interage como se fosse um deles”.

Percebi na hora: o porco se pensa cachorro!

Apesar de todo o instinto natural codificado no DNA como um animal da sua espécie, a convivência estreita com os cachorros fez o animal mimetizar o comportamentos dos caninos. “Até o grunhido dele tem sotaque”, disse o meu amigo. Um espanto!

Comecei a pensar em nós, seres humanos. Somos constituídos na nossa formação de um certo mimetismo. Aprendemos a falar o idioma materno por imitação de sons. O modo de comer, de agir socialmente e até os valores morais decorrem deste espelhamento.

Seríamos os mesmos se fôssemos criados em outro país?

Uma pessoa seria o que é se fosse criada em outro núcleo familiar que não o seu?

Lógico que não.

Somos permeáveis a muitas coisas, que se enraízam em nosso inconsciente e formam o nosso modo de ser. Penso na trajetória dos heróis da mitologia grega que simbolizam nossas facetas e servem, para quem se identifica, como um modelo de ser. Na verdade somos heróis de nossas trajetórias.

Os que vivem e existem na vida são Aquiles, o herói grego que enfrenta os desafios apesar do seu ponto fraco – o famoso calcanhar. Apesar dos medos, inseguranças e às vezes de uma autoimagem depreciada, ou seja, apesar do calcanhar, uma pessoa sempre enfrenta seus desafios. Com isso,  se espelha com o herói.

Quem está livre de medos? Há muitos medos: de ser ferido no amor, medo de adoecer, medo do futuro, medo de acidentes, medo de tantas coisas. Mas  apesar do sentimento, as pessoas namoram, se casam, têm filhos, fazem escolhas e definem seus modos de viver. Se somos modelados por imagens e ideias, qualquer um pode se modificar.

A grande pergunta que se deve fazer é: a pessoa que sou é favorável às minhas ambições?

Se a resposta for não, é hora de se repensar.

Somos seres fluídicos em nosso modo de ser. Traços desfavoráveis podem ser reformulados conscientemente. Nada é definitivo em nossa personalidade. Quem tem lucidez nesta questão tem o maior comando que se pode ter na vida: o comando de si.

Não podemos comandar o destino, mas podemos nos apossar de traços que favoreçam o modo de se viver cada situação, cada encontro que se apresente. Todos temos pontos frágeis. Mas podemos opor aos traços boicotadores um modo inteligente de viver cada situação. E seguir na construção da vida que vale a pena ser vivida.

Coragem está longe de ser ausência de medo. É o contraponto a ele.

Aquiles com calcanhar.

Para isso não tem idade. Nunca é cedo. Nunca é tarde. Sempre é hora de começar a recomeçar.

Freud disse sabiamente: “Somos feitos de carne, mas temos que viver como se fôssemos de ferro”.

Com que raça canina o porco se identifica? Um poodle, um dobermann? Acho que, se pudéssemos perguntar, talvez ele saiba responder. Afinal ele conviveu também com os humanos. Num grunhido humanizado talvez ele nos diga…

Uma coisa é certa. Você pode se responder sempre. Você pode escolher seus modelos de identificação. O porco não tem capacidade de refletir sobre si mesmo.

Mas, com certeza, você tem.

 

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