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Malala, a menina que desafiou o Talibã, vira livro infantil

A jornalista Adriana Carranca é premiada por seu livro que conta a história da paquistanesa ganhadora do Nobel

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Malala Yousafzai acaba de fazer dezenove anos, mas decidiu não comemorar com os amigos em um bar qualquer. No seu aniversário, a paquistanesa fez um discurso em um campo de refugiado no Quênia, pedindo melhores condições de educação para aquela população. Foi por de escolhas como essa que Malala se tornou um símbolo da luta pela educação, sendo homenageada inclusive com um prêmio Nobel da Paz em 2014.

Ela nasceu no vale do Swat, uma região pobre no Noroeste do país, onde ainda estão os integrantes de uma das etnias mais tradicionais do Paquistão: os pachtuns. Entre os pachtuns, o papel da mulher é restrito à casa. Mulher não sai à rua e dificilmente vai à escola. Mas Malala escapou dessas restrições, por ter uma família que gere uma cadeia de colégios – e teve a chance de estudar, desde cedo. Mas com a invasão do Talibã, a vida da menina se tornou mais difícil. Sua paixão pelo conhecimento, que passou a ser reprimida pelos terroristas, fez com que a jovem, aos 15 anos, começasse a escrever para a BBC um blog sob pseudônimo. Ali, ela detalhava o seu cotidiano durante a ocupação talibã, as tentativas de controle do vale e expressava os seus pontos de vista sobre a promoção da educação para as jovens no vale do Swat. Sua popularidade foi tanta que ofendeu o grupo terrorista. Na tarde de 9 de outubro de 2012, Malala sofreu um atentado e quase morreu. Mas ela se recuperou e, desde então, se tornou a grande porta voz de milhares de mulheres jovens que querem acesso ao conhecimento.

Encantada pela história da menina, a jornalista Adriana Carranca se debruçou sobre a vida da jovem e por fim publicou o livro Malala, A Menina Que Queria Ir Para A Escola. Ela descreve aqui o processo de pesquisa – e seu envolvimento com a história dessa menina simples que conseguiu chamar a atenção do mundo.

A escritora e jornalista Adriana Carranca no Salão do Livro Infantil

A escritora e jornalista Adriana Carranca no Salão do Livro Infantil

Como surgiu a ideia do livro?
Cobri os conflitos no Paquistão durante treze anos, e já conhecia a região onde a Malala nasceu. Recebi a proposta de fazer o livro logo depois que ela sofreu o atentado. A ideia era falar do impacto da guerra sobre as mulheres na fronteira e contar um pouco desse drama na região. Queria ir pra lá ver o que tinha acontecido. Entender porque haviam baleado uma menina tão jovem.

Por que escrever para crianças?
Fiquei hospedada na casa do meu tradutor. A família era grande e, durante a noite, todos se sentavam à volta do fogo para ouvir histórias. Os pachtuns ainda mantêm a tradição oral, quase não existem histórias escritas. Todo o dia, o avô se sentava para contar lendas, histórias de criança e de monstros para as crianças. Na escola onde Malala estudava, eu também convivi com muitas crianças. E comecei a perceber de que maneira essas crianças crescem.
É um povo com tradição guerreira – há histórias da passagem de Alexandre, o Grande, por lá. Aliás, vários desses conquistadores do mundo passaram por lá, mas o povo nunca se deixou dominar . E quando o Paquistão ainda era parte da Índia, os britânicos ofereceram títulos de nobreza aos pachtuns, e no vale do Swat havia reis e rainhas.

Parecia um conto de fadas, só que de verdade. A Gata Borralheira moderna era a Malala. Pobre, batalhando para viver, não tinha o sonho de se casar mas sim o de estudar naquele lugar miserável onde as mulheres não vão para a escola. Eu pensei: essa menina é uma Cinderela – e ainda tinha o fato de que, na hora do atentado, ela deixou um sapato para trás. Quando a Cinderela foi escrita, trazia uma mensagem social: se você for uma boa menina, prendada, boazinha, mesmo que você seja pobre, vai encontrar seu príncipe encantado e só assim ser feliz para sempre. E a mensagem da Malala é outra: se você for uma menina dedicada, vai ter sua voz ouvida e vai conquistar seu sonho.

Por que Malala desperta, ao mesmo tempo, tanto medo e admiração?
Primeiro, porque é uma história real e é muito raro contar histórias reais às crianças. Crianças ouvem coisas chatas, que não se relacionam muito com ela. Fora isso é tudo fantasia, história de princesa. Mas Malala é, de verdade, uma menina que, com dez anos, desafiou o Talibã.

Isso é uma exceção no vale do Swat, onde as meninas não saem de casa. No vale há uma faixa: “proibida a circulação de mulheres”. Raros maridos deixam suas mulheres irem às ruas. Elas vivem entre muros e nunca são responsáveis pela casa. A mulher é parte do homem. É muito raro a menina falar. Malala escreveu aquele blog, que ficou muito conhecido no Paquistão e forçou o governo a tomar uma atitude, tirando os terroristas de lá. Ela realmente teve uma parcela de responsabilidade na expulsão deles no vale. Quando o Talibã foi expulso, revelaram que ela era a blogueira. Uma menina de quinze anos! Aquilo era uma vergonha.

Você diz que no fundo ela era só uma menina que queria ir para a escola. O que a fez ela se tornar tão icônica?
Mais 2000 mulheres sofreram algum tipo de violência no Paquistão no mesmo ano do atentado. No caso dela, fica muito claro o papel da educação. Seu vilarejo é muito miserável. Poucas pessoas sabem ler e escrever, principalmente entre as mulheres. A educação e muito fraca. Mas ali havia uma escola, um oásis que educava as meninas em quatro línguas: o pachto, o urdu, o árabe e o inglês. Malala é articulada e tinha educação suficiente para escrever o blog, mesmo sem luz nem computador. Ela ligava de um telefone público e ditava a coluna a um jornalista. E adorava ler sobre tudo, inclusive história e política. Por isso, ela estava pronta quando veio a oportunidade.

Por que a figura de Malala é tão importante para a emancipação feminina?
Eu sempre acho que a gente vitimiza as mulheres, como se elas não fossem protagonistas e donas da sua vida. Eu vi muitas mulheres batalhadores em condições incríveis nesses países onde a situação da mulher é legalmente ruim. Quando a gente fala em igualdade, o mais bonito é dar esses exemplos, e o de Malala tem que ser disseminado. Ela é uma muçulmana e luta pela educação e por igualdade. Eu gosto de mostrar a força das mulheres. Personagens como Malala inspiram outras. Depois dela, surgiram varias Malalinhas no Paquistão. Porque as meninas pensam: “se ela fez isso, eu também consigo”. O lado ruim da guerra a gente já conhece, a gente tem que falar de superação.

 

 

 

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