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O caminho da lagosta: a dor como prenúncio do crescimento

O professor e psicanalista usa a história natural do crustáceo, que precisa se livrar de uma casca apertada para crescer, como metáfora

 

Assisti a um vídeo em que se narrava o processo de crescimento da lagosta. Foi mais uma experiência de maravilhamento frente à sabedoria intrínseca da natureza.

Aprendi que a lagosta, desde pequena, produz uma casca que a protege. Mas ela cresce. Quando cresce um pouco, começa a sentir dor. O que significa? A casca se tornou pequena e ela precisa procurar uma gruta para produzir um novo invólucro. A dor é o sinal de uma mudança.  Esse processo se dá mais de uma vez até o final do crescimento: o corpo se desenvolve e a dor retorna, anunciando que uma nova casca se faz necessária. Casca, crescimento, dor e nova casca.

A dor é anunciadora de uma nova etapa.

Em determinado momento no tal vídeo, o narrador fala com uma certa ironia que se a lagosta tivesse o recurso da medicina humana, iria recorrer a um Prozac para eliminar a dor – e, com isso, permaneceria apertada na mesma casca. O remédio anestesiaria a dor e pareceria que a situação teria sido resolvida.

Se focarmos apenas na dor em si, como um mal, este uso da medicina seria realmente uma solução final. Mas a permanência na casca pequena pode deformar o corpo enclausurado para sempre.

Na visão de muitos, a dor é um mal a ser eliminado. É um problema a ser resolvido. No entanto, ela é uma aliada quando vista como um sinal de que algo precisa ser reestruturado.

A dor é uma sábia fala.

Pensemos numa pessoa casada há um certo tempo e que vive os papéis de mãe ou pai, de mulher ou marido; que trabalha; e, com tudo  isso, começa a sentir uma dor emocional. Teríamos duas abordagens.

O primeiro: poderíamos recorrer ao remédio para conseguir silenciar a dor emocional e, com isso, viver na impressão de que a solução foi encontrada? Há quem faça isso. Dessa forma, anestesiada, a pessoa continuaria na pequena casca sem perceber os danos que esta alternativa pode trazer. Nessa ótica, a interpretação da vida seria calcada na ideia de que há somente dois caminhos: ou se convive o resto da vida com a dor ou a anestesiamos.

Mas há um segundo caminho a tomar. O caminho da lagosta.

Nele, você compreende que a dor está longe de colocar em questão o casamento, os filhos ou o trabalho. Você continua a ser uma lagosta, apenas cresceu e precisa ampliar o território da sua existência, acrescentar espaço. A pessoa cresceu. Não cabe mais naquele tamanho.

A contração que uma grávida sente aos nove meses é uma dor anunciadora que o ser que ela gera precisa sair daquela casca e conquistar agora um espaço maior. Quando saímos da barriga, não estamos eliminando a mãe da nossa vida, mas adquirindo novas dimensões.

Na cabala, isso se chama Kavod, a legitimação de um direito.

Uma viúva sente a dor da perda, que anuncia a necessidade de existir para além daquele papel de esposa. Um novo traço de personalidade deve ser criado, pois o anterior a habilita a viver com a presença do marido.

Repetindo: passamos por vários estágios na vida em que a expansão é anunciada pela dor do desconforto. Cascas maiores são criadas ao agregarmos uma nova à anterior.

Tenho uma amiga que criou seu filho sozinha, não contou em nenhum momento com a presença do ex-marido na função paterna. Ao invés de sofrer, ela se habilitou a crescer nos aspectos que deveria assumir. Posso afirmar com certeza que ela deu conta. O filho se tornou um rapaz maduro, responsável. No entanto, em certo momento a convivência começou a se tornar difícil, pois ele havia crescido e novas necessidades surgiram.

A dor do conflito anunciava apenas que aquele telhado havia se tornado estreito. Nenhum dos dois estava em questão. O cerne da mudança estava no crescimento. Compreenderam, conversaram e chegaram aos acordos necessários. Ao invés de sofrer a dor, realizaram o caminho da lagosta.

A lagosta, além de deliciosa, é sábia. Ao invés de alimentarmos apenas do corpo dela, podemos alimentar nossa mente com esta maravilhosa sabedoria.

Mais lagosta e menos Prozac.

*Manoel Thomaz Careiro é professor e psicanalista

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