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O sucesso vai além da sorte, como provou Josephine Baker

"Todos os que chegam às realizações carregam dores emocionais e medos, mas seguem no firme propósito de conquistar seus objetivos"

A atriz Aline Deluna montagem carioca (foto: Lu Valiatti) / Josephine Baker nos Folies Bergères

 

Fui ao Teatro Maison de France, no Centro do Rio, assistir à peça musical Josephine Baker, a Vênus Negra.

Nesta montagem, chique e discreta, é narrada a intensa história de La Baker, cantora afro-americana que se naturalizou francesa e que, através do talento e da transgressão artística, conquistou o mundo. Teve uma  carreira de sucesso a partir da década de 1920.

A atriz, cantora e bailarina Aline Deluna encanta. Com seu talento excepcional, me fez esquecer que estava numa cena teatral. Os excepcionais músicos Dany Roland, Christiano Sauer e Jonathan Ferr, sob a direção impecável de Otavio Muller, passeiam como musicistas e atores com um equilíbrio perfeito no qual evocam diversos personagens desta biografia musical.

Fiquei emocionado com a história e com a beleza cool das cenas; entre tantas reflexões que me vieram, embarquei na questão da sorte.

Muitos pensam que chegamos à realização dos sonhos apenas através da sorte. Mas quanta gente deixa a oportunidade passar por não se apropriar com potência da chance que o destino traz.

Considero a sorte um fator. É uma chance que só se potencializa naqueles que sabem lidar com o fato de que todo crescimento envolve risco e suscita inseguranças.

Percebo, ao lidar com as questões humanas há 29 anos, que muita gente, apesar das oportunidades, permanece no “querer queria” – é aquele discurso: “querer, eu queria, mas pode não dar certo” e, fixada nessa posição, acaba por transformar os desejos em devaneios e lamentações. Sempre penso se de fato estas pessoas hesitantes querem mesmo aquilo que dizem desejar. Há um ditado que ensina: numa crise, há quem chore. Outros aproveitam para vender lenços.

Josephine era negra num Estados Unidos profundamente racista. Não tinha uma beleza física explícita,  mas queria de verdade abrir as asas, ampliar o alcance de sua arte, transcender os limites impostos pelo momento histórico. Legitimou seu sonho e se apropriou das oportunidades. Fazia com isso a sorte para si mesma e se apropriava das oportunidades. Deixou a menina insegura para trás e, como um herói da mitologia, seguiu sua trajetória apesar das reais dificuldades que enfrentou.

Todos os que chegam ao patamar das realizações carregam inseguranças,  dores emocionais e medos, mas trilham os caminhos que se abrem através do desejo e do firme propósito de conquistar.

A protagonista Aline Deluna abre a peça com um depoimento franco e bem humorado sobre alguns aspectos físicos dela mesma que sempre foram apontados. Os pés grandes demais. O corpo excessivamente magro. A indefinição da cor da pele – ora era negra, ora mulata e, como ela mesmo diz,: uma mulher parda, como um envelope. No entanto, em cena explode em sensualidade e beleza.

À luz do meio dia, quem é perfeito? Carregamos nossas inseguranças e imperfeições. Mas aqueles que criam a sua própria sorte se apropriam dos melhores aspectos de si e caminham com potência e determinação.

A minha carreira é pautada pela fala nos cursos que ministro, mas palestras e nas entrevistas. As pessoas me acham fluente, leve e me idealizam isento de qualquer adrenalina. No entanto, um menino tímido e inseguro  existe em mim..O que fiz? Me sobrepus a ele para construir, em mim mesmo, a versão do meu desejo. As oportunidades que tive só se tornaram favoráveis no campo do real porque assim fiz acontecer.

Lembro-me de quando recebi um telefonema da Faculdade Cândido Mendes de Ipanema para ser professor assistente em três cadeiras do curso de Administração. Eu tinha apenas 23 anos e com um frio imenso na barriga assumi o posto. Fiz da sorte a sorte. O menino estava lá em mim, suando frio, mas o que eu queria para a minha vida jamais poderia ser conquistado através da minha versão mais frágil.

Portanto, seguindo a vida na forma que escolhi, posso afirmar: tudo é uma questão de escolha. Escolhi criar a pessoa favorável aos meus desejos.

Temos que vencer os inimigos internos, suportar inseguranças e medos para ter que suportar o pior dos pesos, as grandes frustrações.

Josephine, com certeza, conquistou seu espaço também através de batalhas internas, para vencer a inimiga que carregava em si mesma. Todos nós temos o sabotador, o medroso, o compulsivo e um ser complexado. Todos precisam ser vencidos e controlados.

A Vênus Negra deu a si o tudo que faltou. Poderia ter vivido através de sua versão vencida, mas era amiga de si mesma e de das próprias ambições Impedida de ser mãe devido a um problema físico, adotou ao longo da vida 12 crianças. Em cada turnê, criava a sua maternidade, acolhendo como filhos dois japoneses, um tailandês, dois franceses, um argelino, um judeu e por aí afora.

Freud afirmou: “um dia, quando olhares para trás, verás que os dias mais belos foram aqueles em que lutaste”.

E como o pensamento é o ensaio da ação, é melhor pensar no possível para que se possa um dia dizer com gratidão: ai de mim se não fosse eu”.

Bravo, Josephine Baker! Sua história nos ajuda a recriar a nossa história.

A peça está em cartaz no Teatro Maison de France. Avenida Presidente Antônio Carlos, 58, Centro. Quinta a sábado, 20h; domingo, 19h. Até 28 de maio.

*Manoel Thomaz Carneiro é professor e psicanalista

 

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