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“Irmã Dulce… 25 anos de imortalidade”

O psicanalista e professor Manoel Thomaz Carneiro fala sobre "escutar a própria alma", como fez a religiosa.

 

Hoje, dia 13 de maio de 2017, completam-se 25 anos da morte da Irmã Dulce, nascida em Salvador em 1914 e batizada como Maria Rita. A história dela me lembra uma fala do filme Moonlight, ganhador do Oscar deste ano, em que um homem diz para Chine, o personagem principal, ainda criança: “Um dia precisamos decidir quem vamos ser”.

Essa fala reflete precisamente o que precisamos fazer na vida para criarmos um caminho coerente, preciso, de acordo com uma escolha pessoal. Mesmo que, por vezes, tenhamos que fazer concessões. A decisão por uma construção  de vida é derivada de um ato da vontade consciente.

Toda decisão racional elaborada e íntima,  está calcada numa razão….Uma razão já é uma razão positiva para se viver. A menina Maria Rita começa a se transformar em Irmã Dulce aos 13 anos, quando passa acolher os mendigos e doentes em sua própria casa. Esta identidade vai ao encontro da vocação que a alma dela começa a soprar.

É importante sabermos o lugar em que nossa alma quer viver. Cada alma reserva talentos e temos que aprender a escutá-la, do mesmo modo que a Irmã Dulce o fez. A palavra talento vem do latim, e significa latente. Nossos dons estão sempre pulsando em nós e é através deles que definimos nossos caminhos.

Ao construirmos nossas vidas através dessas identificações, estamos embasando a sensação interior do sentido na existência. Afinal, viver é uma coisa; mas a identificação com o que se escolheu ser, pode-se assim dizer, é quando a alma se expande, porque damos vazão às vocações. A sensação de ocupar um espaço significante na vida deriva deste aspecto.

Tantas são as vocações! .As humanitárias, as técnicas, as artísticas, a vocação para ser pai, mãe, para casar. Qualquer papel que tenha o significado da identificação nos realiza, mesmo diante das inevitáveis dificuldades que encontramos para exercê-los. A sublimação dos obstáculos que a vida impõe a cada caminho escolhido reforça a certeza de que aquela é sua vocação. A Irmã Dulce deixou um pensamento extremamente preciso: “É preciso ter certeza de estar fazendo a coisa certa”.

Esta certeza deriva da escuta de si próprio. De ouvir as indagações internas. ”Qual o meu lugar no mundo? Para quais mundos minhas vocações me direcionam?” A certeza de se estar em sintonia com seus talentos pessoais é a base do sentido de engrandecimento do que se faz.

Nada mais edificante do que quebrar uma pedra com a força da vocação. Irmã Dulce quebrou várias pedras e vários corações endurecidos para conseguir realizar a obra do desejo que a habitava. Ela foi indicada ao Prêmio Nobel da Paz em 1988, recebeu o epitáfio de “o anjo bom da Bahia”, foi beatificada em 2010 e nos deixa a imortalidade primeira que podemos conquistar, através do testemunho de uma trajetória pessoal identificada com a vocação própria. Essa mensagem que ela nos lega atravessará os tempos: quem escuta a fala da alma, escuta o conselheiro do amor.

Freud diz: “Um dia, quando olhares para trás, verás que os dias mais belos foram aqueles em que lutaste”. Este olhar freudiano nos aponta que, quando estamos lutando pelos papéis que amamos, estamos crescendo, vivendo papeis com significado, papeis que nos fazem crescer.

Posso dizer que hoje comemoram-se 25 anos de Imortalidade da Irmã Dulce..

Vida eterna é a vida terna.

É aquela que você se enamorou consigo mesmo para viver.

 

Manoel Thomaz Carneiro é psicanalista e professor carioca. É colunista convidado so site Márcia Peltier.

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