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Fitoterapia também pode tratar ansiedade e depressão

A nutricionista e fitoterapeuta Ana Paula Moura levanta considerações a respeito dos fitoterápicos no auxílio a condições psicossomáticas

 

Correu pela Internet nos últimos dias a resposta de um chefe americano para sua funcionária. Madalyn Parker, programadora da empresa de softwares Olark, avisou que estava tirando dois dias de licença médica para tratar da saúde mental. O chefe respondeu que ela tinha toda a razão e era um exemplo [aqui, o link da revista Time]. Houve uma reação positiva geral, atribuindo ao episódio um alerta bem vindo: saúde mental inclui sim, ansiedade, e é preciso tratar.

A verdade é que, em tempos de exigências e dificuldades, a saúde mental de quase todo mundo anda precisando de atenção – e nisso se compreendem a ansiedade e a depressão. Mas não é comum a corporação compreender essas condições como transtornos de saúde a serem atendidos e tratados.

A nutricionista e fitoterapeuta Ana Paula Moura vem estudando uma nova abordagem do tratamento de ansiedade e depressão, com o uso da fitoterapia – a ciência da aplicação de medicamentos elaborados com  princípios ativos de vegetais. Ela conversou sobre o assunto.

A fitoterapia costuma ser usada para tratar ansiedade e depressão?

Quando falamos de condições emocionais e psicológicas, podemos citar como exemplo o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), quadro onde o paciente apresenta uma preocupação fora do normal em situações do cotidiano. O tratamento da TAG com fitoterapia é muito promissor e na minha experiência clínica tenho muitos casos de sucesso.

Falando de condições emocionais e psicológicas, há riscos de subtratamento? Quais as fronteiras para a busca de um tratamento mais intenso, com medicação alopática?

O fitoterapeuta, quando é procurado em primeira escolha por um paciente com TAG, por exemplo, sem outro tipo de tratamento paralelo, precisa ter um olhar muito criterioso para saber se:

– o paciente tem condições naquele momento de somente usar a fitoterapia? Existem vários graus de TAG.

– o paciente precisa de outro tipo de acompanhamento, como o psicoterapêutico?

Tudo dependerá do quadro do paciente e da experiência do fitoterapeuta para indicar ou não um tratamento mais intenso, como citou.

Há uma percepção de que o efeito dos medicamentos fitoterápicos é menor, ou muito mais lento. Isso procede? E se não, por que existe essa percepção?

Sim, isto pode acontecer, mas não são com todos os fitoterápicos. Desta forma, o cliente precisa ser avisado desta peculiaridade, do contrário, abandona o tratamento antes do mesmo atingir o efeito esperado.

Dependendo da planta medicinal, precisamos de um pouco mais de tempo para ver seu efeito no organismo.

Podemos exemplificar com a Rhodiola rosea, uma planta medicinal da classe dos adaptógenos, que melhora uma série de sintomas como: fadiga, cansaço, melhora a performance mental (memória), controla o cortisol e o humor. Porém precisamos de um uso contínuo de pelo menos 3 meses consecutivos para observarmos estes resultados.

O que é exatamente a fitoterapia?

A definição oficial de fitoterápico, segundo o Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (2009) é método de tratamento caracterizado pela utilização de plantas medicinais em suas diferentes preparações sem a utilização de substâncias ativas isoladas, ainda que de origem vegetal, sob orientação de um profissional habilitado, ou seja reconhecido.

O uso de plantas nos tratamentos remonta à história antiga da humanidade?

O uso de plantas medicinais é milenar mostrando que elas fazem parte da evolução do homem e foram os primeiros recursos terapêuticos utilizados por diferentes povos, nas mais variadas partes do planeta. As civilizações antigas têm suas próprias referências históricas acerca das plantas medicinais e, antes mesmo do surgimento de qualquer forma escrita, as plantas já eram utilizadas: umas como alimento e outras como remédio.  No Brasil, a história da utilização de plantas medicinais traz influências das culturas africana, indígena e europeia. A contribuição dos diferentes povos africanos que foram escravizados e trazidos para o Brasil se percebe até hoje, em rituais religiosos e também como remédios caseiros, manipulados e fitoterápicos.

Então a alopatia descende da fitoterapia, de certa maneira?

Na alopatia, diversas composições são utilizadas para formar uma medicação, muitas delas retiradas de plantas medicinais. Há, inclusive, remédios que possuem nomes de ervas. Contudo, o princípio ativo é isolado industrialmente.  O uso de medicamento sintético, obviamente, aparece muitos anos após o uso contínuo em todo o mundo do tratamento fitoterápico. Particularmente, enxergo a alopatia como um braço da fitoterapia, onde processos industriais isolam o princípio ativo e o transformam em medicamentos sintéticos.

Houve um retorno aos métodos naturais ou tradicionais (alimentação, cuidados, parto etc) nos anos 1960/70, incorporados pelos hippies e “alternativos”. Talvez por isso, esses métodos são vistos até hoje com certa desconfiança.  Como ultrapassar esse olhar?

A fitoterapia hoje é baseada em estudos e evidências. Ultrapassar o “olhar de desconfiança” é simples: deve-se esclarecer ao paciente  todo medicamento fitoterápico que se está prescrevendo.  Esta é minha conduta: meus pacientes saem do consultório sabendo exatamente a função de cada fitoquímico, bem como ele age no corpo. Desta forma, posso dizer que tenho 99 % de adesão aos tratamentos.  É direito do paciente saber o que está ingerindo e assim ele confia no tratamento proposto.

 

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