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“Fiquei internado mil dias, erradamente diagnosticado e me livrei. Conto agora minha história”

João Vasconcellos fala da luta contra o vício e dos percalços no tratamento no livro "Pensão Margaridas"

Joao

Em 1989, fui internado numa clínica que existia no Jardim Botânico, na Zona Sul do Rio de Janeiro, para um rigoroso tratamento de desintoxicação: nesta época eu estava dependente de álcool e cocaína. Assim que entrei na Clínica, se apressaram em dizer à minha família (como tentaram insistentemente me convencer) que meu problema não era propriamente o vício, e sim que eu estava sofrendo de esquizofrenia, precisando para isso de um longo tratamento. Fui fortemente medicado, de modo a quase não conseguir falar, e fiquei impossibilitado, assim, de apresentar alguma melhora… Fiquei muito assustado com essa situação, bem como com o tratamento experimental que era feito com o LSD homeopático. Ora, afinal o meu quadro era dependência de drogas.

Uns dias após minha internação, deu entrada na Clínica um rapaz vindo de Petrópolis, da Santa Mônica, que foi submetido ao mesmo tratamento, e que morreu poucos dias depois. O seu pai, muito revoltado, resolveu processar a Clínica… Imaginem nossa sensação, trancados na instituição, quando a notícia da morte do paciente nos chegou através do Jornal Nacional (assistir televisão era a distração que tínhamos à noite…). Foi quando ficamos sabendo que o caso estava tendo repercussão nacional.

Fiquei internado (no total) por quase mil dias, e, depois disso, quando consegui voltar para casa, permaneci ainda por três anos em estado vegetativo, tomando os mesmos remédios que tomava na Clínica: eu dormia o dia inteiro. (Os médicos afirmavam que eu não podia interromper o ‘tratamento’ um único dia porque teria ‘crises’).

No final de 1995, por uma fatalidade, eu perdi os receituários necessários à aquisição dos remédios, e, após três dias sem tomá-los, acordei curado, livre da sedação, e assim permaneço até hoje, vinte anos depois.

E como superar o vício, se, conforme o meu ex-terapeuta “a dependência de drogas é doença clinicamente incurável”? Bem, naquela época, quando resolvi dar um tempo das drogas, para minha surpresa, a minha vida melhorou tanto que resolvi me desligar daquilo de vez. Eu logo percebi que havia começado uma nova fase em minha vida. Procurei preencher bastante o meu tempo. Desisti de agir como um eterno adolescente, como um animal correndo atrás da própria cauda… Passei a ter um sucesso meteórico em minha oficina de eletrônica, e me tornei um profissional procurado o dia inteiro pelos clientes… Percebi claramente o quanto o vício colocaria em risco aquilo tudo.

Foi quando me dei conta de que tinha uma história singular, por ter sido vítima de erro médico, e resolvi escrever um livro narrando a experiência, o qual levei vários anos para produzir.

Assim que o livro ficou pronto – e para a minha surpresa – passei a receber muitos elogios, inclusive do poeta e crítico literário Ivan Junqueira, imortal da Academia Brasileira de Letras, que deixou um texto em manuscrito, encontrado após sua morte, que foi utilizado como prefácio.

Há muitos anos, ao me reintegrar na chamada vida normal, passei a sentir isso como sendo pouco: que não seria suficiente, para mim, simplesmente voltar a ser uma pessoa funcional dentro do sistema, dentro da sociedade. Eu queria mais. Resolvi deixar registrada a minha marca, a minha passagem. Por esse motivo resolvi me tornar escritor, e batizei o livro com o nome da Clínica: ‘Pensão Margaridas’.Estou escrevendo o segundo livro: ‘Sem mapa no território’, onde narro outras histórias, e abordo temas importantes, alguns dos quais guardam relação com o antes e o depois da internação. Estou muito feliz porque a continuidade da minha carreira como escritor está sendo firmemente cobrada por muitos leitores.

 

 

 

 

 

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