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“A festa interna é conhecer a pluralidade de si mesmo!”

O professor e psicanalista fala da alegria que é conhecer gente diferente - e também as nossas diversas facetas, para existir de maneira plural

 

Quem, pelo menos uma única vez, não entrou numa festa e ali percebeu que não conhecia pessoa alguma? Acho que quase todo mundo já passou por isso.

É muito estranha a sensação que esta circunstância nos traz.

Eu me lembro de uma cerimônia de casamento a que compareci. Sentado no banco da igreja, comecei a buscar conhecidos. Não via um sequer! Achei estranho, pois conhecia bem os noivos. Quando o cortejo de padrinhos e pais do noivo começou, percebi que havia me enganado de igreja! Tive a exata sensação de que todos sabiam do engano: eu era um peixe fora d’água. Esperei todos chegarem ao altar, saí e peguei o carro em direção à igreja certa!

Numa festa, a sensação é bem pior. A pessoa deslocada pega um copo de bebida e passeia pelo espaço com um sorriso literalmente ‘meia boca’, à procura de um rosto familiar. Às vezes surge um, depois de algum tempo, e a gente… começa a pensar para buscar: quem seria? De onde conheço? De repente, o clarão: amigo da faculdade! De vinte anos atrás!

Para se salvar do desconforto, a gente se aproxima do colega como se ele fosse uma boia salvadora e se agarra, pois todos os outros são estranhos. Começa a puxar lembranças para que a pessoa a reconheça. Mas a conversa evolui de maneira morna.

A vontade é dizer – e fazer: “fui!”. E bater em retirada.

Pois nesse fim de semana vivi a experiência oposta. Cheguei a uma festa, bem depois da hora marcada para o início, e desde a porta comecei a encontrar pessoas que fazem parte do meu mundo. É tão aconchegante falar com um, com outro…! Cada um desses amigos toca um diferente aspecto nosso, uma faceta diversa – e, ao mesmo tempo, estamos inteiros, presentes com nosso plural interno. Um amigo menciona o trabalho, outro conversa sobre fases anteriores da vida. Tem o da academia, o da intimidade. Falamos de assuntos diferentes. Cada um de nossos aspectos encontra eco e parceria.

Fiquei pouco tempo nessa festa porque tinha que chegar cedo em casa, mas saí com minhas facetas internas muito alegres. E na volta comecei a refletir: como é bom conhecer gente! E, claro: como também é bom se conhecer.

Muitos parecem carregar estranhos dentro de si. Quando é assim, a pessoa que não se conhece caminha pela vida através de aspectos monotemáticos, desenvolvendo poucos papeis. Segue num existir desconfortável, com a impressão que falta algo para se considerar incluso no contexto da vida.

Falta conhecer pessoas?

Com certeza, o que falta é conhecer a pluralidade de si, os lados que conduzem aos interesses variados.

Somos plurais na nossa singularidade, podemos gostar de muitas coisas. Estabelecer amizade com estas partes de si mesmo faz com que a sensação de estar inteiro seja ampliada. Um aspecto leva ao esporte. Outro lado é o de mãe ou pai. Outro, o profissional, o das viagens, dos cursos de aperfeiçoamento. O monólogo dá lugar ao diálogo, a troca interna entre vários aspectos de si mesmo. Neste reconhecimento interno, nos tornamos dialógicos.

Dialogar com as partes de si próprio é um convite às identificações. Dessa forma, uma festa interna se realiza. O crescimento, a expansão partem deste reconhecimento de si. São como amigos internos que nos conduzem ao plural da existência, e também nos levam a pluralidade das amizades externas.

Um amigo para cada aspecto seu. Assim a vida se faz festa.

Há pouco vi um filme sobre uma menina que vai fazer 15 anos e não tem a quem convidar. Ela é monotemática. Carrega estranhos dentro de si. Faz 15 anos de desconhecimento pessoal. Assim a vida se faz solidão dentro e fora. Nessa festa do existir, dá vontade de sair à francesa da existência.

O sucesso está em estabelecer vínculos com cada parte sua e convidar estes “amigos” para viver plenamente e em harmonia, cada um tratando de um interesse. É assim que a vida se torna interessante.

Assim, muitas vezes, nem se precisa tanto sair, pois já estamos habitados, preenchidos.
Um viva às amizades internas! E à festa que fazemos dentro de cada um de nós!

*Manoel Thomaz Carneiro é professor e psicanalista

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