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“Em que mundo eu vivo? Perceber a própria natureza é SABER SER o que se é”

O professor e psicanalista fala da importância de descobrir sua natureza básica e trabalhar a partir dela para uma vida plena

Foi divulgado recentemente o resultado oficial de uma longa e impressionante pesquisa. Os cientistas selecionaram fetos que começaram a ser acompanhados pela equipe. O acompanhamento seguiu os fetos até o nascimento e depois até o final da adolescência, para examinar o perfil psicológico de cada um a longo prazo.

Na primeira etapa, observou-se através dos exames de imagem qual era a reação dos fetos quando alguém estranho à família nuclear tocava e acarinhava a barriga da gestante. E havia dois tipos de reação, nitidamente detectados.

Alguns fetos, ao sentirem o toque, se escolhiam como em um movimento de proteção, se defendendo da interação. Outros se movimentavam como se buscassem estabelecer contato com aquela presença.

Ao longo dos anos, acompanharam as vidas dessas crianças e jovens. Puderam constatar após o nascimento: aqueles que haviam se encolhido demonstraram uma vida mais introspectiva. Já os que durante a gravidez reagiram com mais interação aos toques se desenvolveram com um modo de ser mais expansivo.

Os mais retraídos diante dos estímulos se apresentavam mais pensantes e com um senso de observação muito profundo durante a vida. Os expansivos se apresentavam, ao longo da vida, mais comunicativos.

Conclusão? Trazemos em nossa epigenética um modo pessoal de ser.

Carregamos, de fato, um modo pessoal atávico de reagir diante do mundo. Naturalmente, o contexto de cada existência pode acentuar ou atenuar estas características.

Durante a vida, se desejarmos, podemos construir novos traços, como se fossem uma segunda pele, para modificar o que trazemos como natureza pessoal. É como o cabelo, que pelas características genéticas, tem certa cor, textura, espessura – mas pode ser modificado por intervenções, química, tratamentos.  A aparência muda, mas a base se conserva.

Assim somos também em relação ao nosso modo de ser.

No mundo atual, predomina a ideia da interação contínua e intensa como padrão de uma forma saudável de ser. Esta exigência da pós modernidade, como foi batizado esse nosso tempo atual, pode gerar grandes conflitos internos, inclusive diante das expectativas que os pais criam de que aquele filho ou filha tenha um desenvolvimento expansivo.

As pessoas mais introvertidas ou reflexivas são vistas hoje como complexas. Há quem receba um diagnóstico leigo de autista!… São avaliações selvagens, como dizia Freud; visões sem conhecimento profundo da vida psicológica.

Denomino estas pessoas de “opinólogos da vida alheia”. Concluem, enquadram e aconselham sem bases de conhecimento.

Mas podemos reconhecer sem grande dificuldade a nossa natureza epigenética. Para compreender a si mesmo por esse ângulo, podemos nos perguntar: em qual mundo gosto mais de viver? No interno ou no externo?

Grandes escritores, compositores, artistas do pensamento – como poderíamos chamar –  precisam, em sua maioria, vivenciar períodos de contemplação. Numa espécie de transe refletem, concluem e criam.

Os mais expansivos de modo contínuo, apresentam mais aptidão para realizar e implementar no mundo as criações.São mais pragmáticos.

Se pensarmos bem, a natureza é perfeita, pois um complementa o outro.

Eu já me conheço bem neste aspecto. Sou um pensante desde menino e, apesar de ter desenvolvido por opção uma ampla sociabilidade,necessito dos meus momentos de contemplação – ou de ócio criativo.

Saber ser é exatamente isso: se legitimar e saber se conduzir, extraindo de si sentido e propósito da vida. É fundamental se respeitar, ser sobretudo coerente com a própria natureza. Cada modo de ser tem sua riqueza, sua singular aptidão.

Em que mundo eu vivo?

Adoro pensar os melhores modos de construir a sensação de que a vida vale a pena ser vivida. Deixar minhas ideias espalhadas pela vida. De vez em quando, me esbaldo no nada pensar, mas sem nunca me perder de vista..

E você? Em que mundo você gosta de viver?

A melhor versão para cada um emerge a partir da sensação de que você está presente na vida que leva. Viver é uma questão. Existir na vida que se tem é outra questão. Maior.

O importante é tirar partido do que se é. Perceber sua natureza através dela e aprender a SABER SER.Em que mundo você vive? No seu? Torço para que seja. Se não for, é hora de procurá-lo.

Manoel Thomaz Carneiro é psicanalista e professor

 

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