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É possível suspender o tempo e voar!

"Comungar com suas verdadeiras identificações é fazer com que a vida se desdobre em prazer"

 

Outro dia, num restaurante, havia numa mesa um menino e uma menina de uns cinco anos, com certeza irmãos, tão entretidos um com o outro que pareciam misturados até a alma. O mundo, para eles, estava suspenso, tamanhas a concentração e a cumplicidade com que folheavam uma revistinha. Quando ela apontava um desenho, ele, de olhos brilhantes, sorria, sorria muito.

Estavam em órbita, como se a lei da gravidade que nos subjuga estivesse eliminada. Passaram horas nesta suspensão. Na mesa ao lado, comecei a lembrar momentos em que também para mim o tempo inexistiu.

Mergulhei nessa lembrança, visitei memórias. Tempo Suspenso.

Tempo em que houve uma interação entre mim e os alunos e alunas, fundidos na ideia de explorar um tema. A comunhão de percepções e reflexões por vezes é tão profunda que constrói uma aura única.

Quantas vezes somos capturados por essa sensação de absorção absoluta por algo, como se nada mais existisse…! Um filme; um livro; uma música; um momento de amor; uma conversa; uma aula; uma caminhada, uma sessão de análise.

Lembrei da minha sensação de hiato no tempo durante a gravação do programa Márcia Peltier, na época do lançamento do meu primeiro livro. Houve, durante a entrevista, uma suspensão. Parecia que os quarenta e cinco minutos não haviam se passado. A sensibilidade e o olhar atento de Márcia me fizeram viver a sensação de fusão como a dos irmãos de 5 anos na mesa de jantar.

A vivência de alguma coisa é maravilhosa quando comungamos ideias e sentimentos. Como é bom encontrar momentos de leveza e de suspensão do peso na alma.

Quando escuto  uma peça musical envolvente, vejo um filme ou leio um livro com histórias que eu queria que acontecessem comigo,  desligo-me do mundo.

Os encontros com o mundo das identificações e a vivência no subjetivo dos pensamentos nos levam a uma espécie de fuga dos limites do corpo para o encontro com o incorpóreo. Essa saída intelectual de si próprio é uma trégua que o ser humano pode considerar um momento oceânico de calma – e, portanto, de felicidade.

São nos momentos de suspensão que nossa alma vivencia a felicidade. Ela perde o peso do corpo e ganha asas na leveza que a identificação positiva com algo ou alguém traz. As experiências dos bons encontros proporcionam o escape das preocupações com o mundo imediato.

Comungar com suas verdadeiras identificações é fazer com que a vida se desdobre em prazer. Disse Disraeli: “a vida é muito curta para ser pequena”.

Diante disso, o que vale a pena?

Vale a pena fazer direito o que vale a pena ser feito.

Vale a pena fazer a felicidade e, portanto, vale bem a pena fazer bem feitos os bons encontros.

De fato, há pessoas que nos fazem parecer ter perdido uma vida inteira em cinco minutos. Em contrapartida, há quem nos faça, em cinco minutos, valer uma vida inteira.

Cinco minutos em que ministro uma aula, cinco minutos de uma inspiração para uma crônica, cinco minutos com alguém com quem tenho afinidade, cinco minutos com algo que adoro realizar – são os minutos em que minha alma se alça em felicidade.

Dedique-se, ao menos por cinco minutos, a fazer bem feito algo que vale a pena.

Dedique-se a viver cinco minutos de encontro, de comunhão com algo, com alguém.

Dedique-se. Para que, como disse Freud, possa “construir uma vida que seja capaz de viver” e,  portanto, de relembrar.

Procure reviver sempre os bons cinco minutos para que a sabedoria do passado seja presente e que o presente seja um trampolim para um bom futuro.

Adorei viver estes momentos de felicidade e por isso partilho essas ideias com você. Afinal, uma grande felicidade na minha vida é passar vários cinco minutos ensinando ou divulgando aquilo que aprendi e que me transforma.

 

*Manoel Thomaz Carneiro é psicanalista e professor. Escreve às segundas feiras nesse espaço.

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