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Diabetes: em crescimento no mundo todo, é uma epidemia também no Brasil

A doença atinge entre 12 e 14 milhões de brasileiros, dos quais 300 mil crianças. Alguns tipos de diabetes são assintomáticos. Mas há boas novas

Os números são impressionantes. O diabetes é hoje uma doença que atinge quase meio bilhão de pessoas no mundo e, no Brasil, a Sociedade Brasileira de Diabetes aponta que o número de diabéticos chega a algo entre 12 e 14 milhões de brasileiros, sendo 300 mil crianças. Segundo o Ministério da Saúde, a cada dia, aparecem 500 novos casos. O Dia Mundial do Diabetes, 14 de novembro, foi estabelecido pela Organização Mundial de Saúde em 1991 visando chamar a atenção para a doença.

– O diabetes é hoje uma pandemia, ou seja, mais do que uma epidemia, porque tem escala global  – diz Roberto Luis Zagury, endocrinologista do Laboratório de Performance Humana da Casa de Saúde São José. – É alarmante. E o Brasil figura entre as nações com maior velocidade de crescimento do número de casos, ao lado do Sudeste asiático e a Índia. No 8º Atlas do Diabetes, que saiu nesse mês de novembro, o Brasil está em 5º lugar no mundo em casos de diabetes.

A doença do metabolismo se caracteriza por excesso de glicose no sangue e na urina. Há dois tipos de diabetes. O chamado Tipo 1 acontece quando o pâncreas para de produzir o hormônio insulina, que regula a quantidade de glicose na corrente sanguínea. No tipo 2, o corpo desenvolve uma resistência à ação da insulina. Há ainda diabetes gestacional – que surge na gravidez.

– A diminuição da ação da insulina ou resistência à insulina são os pontos principais – continua Zagury – Mas sabemos hoje que existem 13 outros pontos que contribuem para a glicose se elevar no organismo de alguém. Por isso o diabetes é tratado com vários medicamentos.

Aquela percepção de que “diabético não pode comer açúcar e ponto” está ultrapassada, avisa o médico. O sedentarismo, refeições ricas em alimentos industrializados, carboidratos simples como pães e doces, gordura saturadas e pobre em proteínas são fatores determinantes para um caminho que leva à doença.

– A história familiar conta muito, em especial se existem diabéticos entre os parentes de primeiro grau – avisa ele. – Mas a manutenção de maus hábitos ao longo da vida bate o martelo, digamos assim. Para se defender do diabetes, as medidas são rotina de exercícios, não ganhar peso, alimentação saudável.

E muita atenção. Sintomas clássicos como poliúria – urinar em excesso -, polipsia – beber muita água – e polifagia – a pessoa come muito e ainda perde peso – são sinais de alerta para a presença do diabetes, comuns no tipo 1. Mas os diabéticos do tipo 2 em geral são assintomáticos.

– E aí, quando a doença se apresenta, em geral já é com alguma complicação. Por isso é muito importante que populações de alto risco façam teste de glicose – aponta Zagury.

Uma associação que pouca gente faz é a do tabagismo com o diabetes. Na verdade, ainda não há na Medicina uma explicação clara para essa relação de causa e efeito, mas, assegura o endocrinologista, é “um fator de risco importante para o desenvolvimento do diabetes”. Outra associação que não é comumente feita: o diabetes e a síndrome do ovário policístico, que acomete muitas mulheres.

– As mulheres que têm ovário policístico são especialmente suscetíveis ao diabetes, porque a síndrome tem como causa a resistência à insulina, e não afeta apenas na questão da fertilidade, mas também no aspecto metabólico.

A descoberta da insulina, em 1921, foi o passo decisivo para tratar o diabetes, antes disso uma sentença de morte. A principio preparada a partir do pâncreas de bois e de porcos, a  técnica evoluiu para a síntese através de engenharia genética.  Sendo uma doença complexa, que envolve muitos fatores, o diabetes precisa de uma polifarmácia, vários medicamentos de famílias diferentes. Isso porque a presença da glicose no sangue causa problemas em diversos órgãos.

– A glicose alta no sangue é problemática porque órgãos-alvo lidam mal com a glicose em excesso. A visão, o rim, os nervos, o cérebro e o coração. São complicações microvasculares como a nefropatia diabética, a falha dos rins; os nervos, a neuropatia diabética; dos olhos, a retinopatia diabética, que m levar à cegueira, à necessidade de diálise ou transplante de rim. A disfunção erétil também está na lista das complicações microvasculares. Mas as complicações macrovasculares são quando a glicose agride os grandes vasos do nosso corpo. O infarto e derrame, são as principais causas de morte da população diabética – explica Zagury.

O endocrinologista conta que a chegada de novidades para o tratamento e o acompanhamento da doença é constante.

– A tecnologia envolvida nas agulhas é um exemplo – descreve. – Nos anos 60, era preciso afiar a agulha de uma seringa! Hoje a agulha tem 4mm, superfina, desliza pelas fibras da pele, não machuca; há canetas de insulina. Os governos estão passando a financiar mais, os Estados Unidos estão numa campanha contra o diabetes, financiando pesquisas.

Mais do que agulhas indolores, há evoluções com jeito de ficção científica:

– Existe, em desenvolvimento, um aparelho que mede a glicose o tempo todo e é uma lente de contato, no campo de visão vai aparece o alerta de uma queda de açúcar, por exemplo. É uma parceria da Google com a farmacêutica Novartis. E há medicamentos que combinam dois mecanismos de ação diferentes num mesmo composto; há terapia semanal; e há um pequeno implante, uma mini-bomba osmótica, do tamanho de um palito de fósforo, a ser implantada em consultório debaixo da pele do paciente, garantindo por seis meses a medicação correta e que está chegando ao Brasil em breve – conta o médico.

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