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“Construo meu mundo através de histórias” – o ator Felipe Folgosi lança graphic novel

Também escritor, cronista e roteirista, Folgosi desenvolveu seu segundo projeto no gênero

 

Histórias, tudo se resume a isso. Muito já se teorizou sobre como o ato de contar histórias está ligado ao desenvolvimento cognitivo do homem, desde as pinturas rupestres na Caverna de Lascoux, passando pelo teatro grego até o videogame de realidade aumentada. Independentemente da mídia ou tecnologia, contar histórias é intrínseco ao homem, sendo talvez a primeira manifestação da consciência humana.

Narramos todos os acontecimentos de nossas vidas, dos mais banais aos fantásticos, criando uma ilusão de causalidade através da sucessão de fenômenos no tempo, e quando não conseguimos encaixar algum acontecimento nessa relação isso nos incomoda tremendamente. Talvez só o pensamento matemático esteja livre de uma relação temporal, mas o fato é que, desde que me conheço por gente, leio a realidade e construo meu mundo através de histórias. As que meu pai contava antes de eu dormir, as que via nas imagens do Tio Patinhas ou do Recruta Zero antes de saber ler, as que assisti precocemente, contrabandeado pelos meus pais para dentro do teatro e cinema (respectivamente “Morte Acidental de um Anarquista” com o Fagundes  e “O Campeão” do Zeffirelli ), a que li com sete anos, em meu primeiro livro dado por minha mãe, “Robson Crusoé”, até o momento que comecei a criar minhas próprias histórias, vivendo-as vicariamente através do meu “Falcon” ou dos “Comandos em Ação”, onde não raramente irmãos de sangue se encontravam em lados opostos e eram obrigados a lutar, com todas as questões morais de uma tragédia grega que uma mente de nove anos podia criar.

Enfim, minha paixão por histórias era tão grande que acabou determinando a minha própria história. Aos quatorze anos, fui trabalhar em uma locadora de vídeo para poder assistir filmes o dia todo. Mas logo assistir já não bastava; queria viver aquelas histórias. Então, com quinze anos, entrei em um curso de teatro e aos dezessete, como em um “Deus ex machina”, passei no teste para um seriado da maior emissora do país e minha vida tomou um novo curso.

Anos depois, em busca de saber contar histórias com mais propriedade, fiz faculdade de cinema. Na época, participei do Concurso Nacional de Dramaturgia promovido pelo Ministério da Cultura do qual fui vencedor com a peça “Um Outro Dia”, o que me deu a validação necessária para pausar a carreira e ir estudar em Los Angeles por dois anos, me aperfeiçoando em roteiro.

Ao retornar em 2003, comecei a escrever roteiros com a intenção de vender no mercado americano, esperando que uma outra intervenção divina acontecesse. Ela aconteceu, mas não como eu esperava, fazendo com que anos se passassem sem que vislumbrasse nenhum resultado além de ir enchendo minhas gavetas de roteiros como “Aurora”, minha primeira HQ e “Comunhão”, meu mais novo lançamento.

Através desses anos de espera e trabalho solitário, aprendi muitas lições sobre o ofício da escrita, sem ter que me preocupar com as distrações do sucesso imediato. Olhando em retrospecto, hoje percebo que ter me tornado ator profissional e agora autor foi decorrência de um processo lógico e natural, quase inexorável, nascido dessa necessidade de criar e compartilhar histórias. Ou será que isso é apenas minha mente procurando ordenar os acontecimentos da minha vida e dar-lhes algum sentido? Eu construo minha história ou sou construído por ela? Determinismo ou livre arbítrio?

Essa leitura depende da disposição pessoal de cada um. No meu caso, creio sermos simultaneamente personagens e coautores de um parágrafo inserido em uma obra imensa chamada tempo, da qual apesar de conseguirmos ler apenas parte por hora, sabemos que terá uma conclusão boa e perfeita, por ser criação do maior autor que há.

 

“Comunhão” : https://www.facebook.com/ComunhaoHQ/

*Felipe é ator, escritor, cinéfilo e leitor de gibi. Começou a fazer teatro aos quinze anos e estreou aos dezessete na televisão com a mini-série “Sex Appeal” na Globo em 1993. Ente as novelas que fez estão “Olho no Olho”, “Explode Coração”, “Corpo Dourado”, “Vidas Cruzadas.  Seu último trabalho na TV foi “A Terra Prometida” na Rede Record e está no ar com o seriado “171-Negócio de Família” do Universal Channel. Decidiu transformar o roteiro de ficção-científica “AURORA” em uma Graphic Novel, lançada em 2015 em parceria com o Instituto dos Quadrinhos e arte de Leno Carvalho.

 

 

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