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“Cícero Dias recriou o mundo e se nutriu incansavelmente dele”

O professor e psicanalista conta uma bela história de proximidade com a vida de um grande artista e as lições que aprendeu ali

Fui ao CCBB do Rio para a abertura da exposição do Cícero Dias, grande pintor do século 20. A mostra exibe inclusive obras nunca expostas, que pertencem ao acervo da filha dele,  Sylvia Dias.

Ao percorrer as salas com cartas, fotos e obras, me deparei com uma tela que retrata Raymonde Dias, sua mulher por toda uma vida.

Conheci, há muitos anos, Raymonde e Sylvia, através de um amigo que mora em Paris. Num jantar, falaram do plano de escrever uma biografia de Cícero – e assim começou a minha viagem ao universo deste pintor. Ao longo dos três meses da minha temporada em Paris, entrevistei Raymonde para dar o start ao livro que foi lançado pela Cosac Naify com o nome Eu Vi o Mundo.

O relato de Raymonde, todo gravado em fita e formatado, no final, por um jornalista, era fascinante. As histórias dariam um grande filme. Cenas de amor, de suspense, a presença de personagens míticos da história do século 20…! Mas entre tantas narrativas, a que mais me marcou foi o encontro desta parisiense – Raymonde –  com o grande e único amor da vida dela. Cícero Dias.

Os dois se conheceram numa estação de metrô, no início dos anos 1940, com a cidade já ocupada pelos nazistas. E assim ela narra: “Guerra , medo e escassez de tudo…Vivíamos num sobressalto contínuo e eis que, numa tarde, a caminho do trabalho, vejo um homem alto e elegante que se aproxima de mim. Falando num francês  com um sotaque charmoso, começa a conversar como se me conhecesse de várias vidas….Ao final, disse: Quero o seu telefone para você tomar um café comigo em meu ateliê….” Ela confessa que a princípio achou que ele era algum tipo de espião,  pois tinha um apartamento no 16º Arrondissement, bairro nobre de Paris, e ainda tinha café,  uma preciosidade em meio  àqueles tempos de guerra.

Assim, Raymonde se insere na vida desse homem que, além de grande mestre da pintura, tinha um carisma imenso. Para que pudessem  se casar, Raymonde teve  que sair de Paris vestida de camponesa, carregando com uma cesta de maçãs, para encontra-lo em Lisboa, local onde Cícero estaria após ser solto pelos alemães –  ele chegou a ser prisioneiro da Gestapo. Assim foi: uma menina fugitiva da dominação alemã e um pintor brasileiro libertado. O quadro Retrato da Raymonde foi pintado em Lisboa, em 1942, e eles já estavam casados.

É uma grande história de amor que gerou uma filha, Sylvia, artista que herdou o talento do pai.

Para pintar, Cícero permanecia recluso em seu ateliê durante quase dez horas por dia. Isolado. Sem os recursos de hoje, whatsapp,  facebook, celular, televisão. Sem solidão interior alguma, ele se mantinha com a presenças das imagens internalizadas do Brasil e de todos os lugares por onde passara. Era habitado pelas formas, cheiros e cores que circulavam no mundo interno próprio.

Ao pensar no mundo atual que nos  puxa para o círculo externo, com tantos contatos, penso em quantos conseguem passar horas apenas com a presença dos cenários internalizados. O tempo atual nos retira de nós mesmos. E a ideia de permanecer só se tornou assustadora.

Cícero Dias e a filha, Sylvia / Ao centro, detalhe do ateliê d artista / Obra sem nome

Ao visitar esta retrospectiva, pensei na importância da solidão produtiva. Momento em que encontramos nossos talentos latentes e podemos, cada um à sua forma, criar algo para o mundo. Inspiração e expiração.

Cada tela do Cícero é uma explosão de cores, poesia e, mesmo nas obras mais sombrias, há uma felicidade subjetiva, afelicidade de quem sabe se alimentar do existir. Onde as memórias, ao invés de se tornarem passado, se fazem signo de vivência e fonte de recriação.

Assim são realizadas as grandes obras. Desta solidão habitada.

Visitei muitas vezes o ateliê do Cícero Dias, pleno de pincéis,  esboços,  desenhos de outros grandes pintores e até um sapato da Rita Hayworth, grande mito do cinema dos anos 1940… e autografado, ainda por cima!

Após o falecimento do Cícero, Sylvia e Raymonde decidiram colocar à venda o apartamento da rue Longchamp, para que Raymonde pudesse morar num imóvel mais compacto Encontraram na mesma rua, na verdade num prédio ao lado, um novo apartamento, que tinha espaço para manter o ateliê. O grande desafio era transportar para o novo local o ateliê – intacto.  Sylvia, com a dedicação ímpar que tem por tudo o que pertence à história do pai, conseguiu uma equipe  que ela chama de Anjos Japoneses. Anjos porque realizaram este trabalho de desmontar e remontar o ateliê sem fazerem um só barulho. Japoneses, pela habilidade que tiveram!

O ateliê de Cícero Dias permanece como um espaço sagrado em Paris. Para mim,  simboliza o espaço onde a vida faz sentido. Aquele local onde tiramos de dentro de nós a criação, marca do nosso Eu invisível que podemos deixar no mundo.

O sentido da vida está de fato em encontrarmos nossa singularidade e, a partir dela, criar o mundo próprio. Uns fazem telas, outros pensamentos, outros, pesquisas, outros, brigadeiros e assim o mundo se colore… e nossa vida pessoal se ilumina.

Quem nada cria, cria é problema.

Há um quadro emblemático nesta exposição que se chama Eu Vi o Mundo. Posso afirmar que Cícero viu o mundo e se nutriu dele. Recriou incansavelmente o mundo que viu.

Qual a melhor marca que podemos deixar no mundo? A que usamos ou aquela que criamos que nos faz eternos?

Das cores, dos medos, dos amores, Cícero fez pinceladas de cor e poesia.

Vamos fazer o mesmo?

Pincelar nossas realidades com mais amor e poesia.O mundo está precisando que sejamos criadores do Belo.

Viva o Cícero! Vivam os Cíceros de cada um de nós!

*Manoel Thomaz Carneiro é professor e psicanalista

 

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