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“Chapeuzinho Vermelho é uma história de transmutação para a vida adulta”

Manoel Thomaz Carneiro fala dos símbolos das mudanças que a vida nos exige para evoluir. "Viver é ressurgir para muitas páscoas internas"

 

A frase na fachada abaixo me transporta a um pensamento, uma ideia minha que cito muito nas aulas e palestras que ministro: pensar todo mundo pensa, mas pensar bem… eis a questão.

Pensar bem é uma habilidade desenvolvida através dos conhecimentos que são elaborados através de reflexão. É com essa elaboração que podemos conduzir bem nossa existência, seguir no contexto da vida.

Afinal, como afirma o psicanalista Jorge Forbes, nascemos desbussolados. Por isso, precisamos adquirir, durante a vida, as direções, as referências que nos norteiam.

Os pensamentos filosóficos, os textos sagrados, os contos e as mitologias são enredos que, quando são refletidos, revelam o que pontua nossa existência.

Volto a pensar nos contos infantis originais. Segunda passada, falamos aqui da versão primeira da Gata Borralheira. Agora busco a história original do Chapeuzinho Vermelho.

Esse conto teve origem  numa região isolada dos Alpes. No lugar de uma menina, temos uma adolescente que acaba de entrar no mundo adulto. Daí sua capa vermelha: é o símbolo da menstruação.

No percurso entre a casa de Chapeuzinho, onde morava com a mãe, e a casa da avó,  temos o bosque, que representa o ritual de transição da infância para o mundo adulto. Ela caminha só. Deixa para trás os aspectos infantis da proteção permanente da mãe e adentra no mundo cheio de riscos, mas também de oportunidades de crescimento.

O Lobo tão assustador representa o desabrochar da vida sexual. Nessa versão, a avó é devorada pela neta numa  sopa que o Lobo prepara. O que isso simboliza? É a representação da necessidade psicológica de seguirmos para a etapa da vida seguinte, mas sem esquecer de se alimentar dos aspectos vivenciados na infância.

Assim, Chapeuzinho sai da infância e se abre para a vida adulta. Sai de um contexto e entra em outro. No final da história, o Lobo devora Chapeuzinho – assim, a sexualidade emerge nela por inteiro.

Os contos eram construídos  sobre um realismo mágico para simbolizar uma estrutura psicológica. Essa história, uma das mais conhecidas na versão posterior dos Irmãos Grimm e de Charles Perrault, apresenta a alegoria da transformação, necessária para que a pessoa não fique estagnada, presa numa fase da vida já encerrada.

A vida exige, de cada pessoa, a realização dos ritos de passagem. Sair de uma condição para outra.

Nessa viagem da vida, em que o contexto muda, cada um deve se dispor ao desenvolvimento de novos aspectos da personalidade para viabilizar essa evolução. A personalidade de uma fase anterior não necessariamente garante o êxito no novo ciclo que se inicia.

Uma pessoa que resiste às transformações se perde na floresta. Não realiza a entrada no novo momento que se impõe diante de cada um.

O menino que fui, o Nelzinho, ainda existe em mim, mas é inábil para viver o meu cotidiano em todas as suas fases. Aprendi a aceitar as inevitáveis renúncias, o desapego às pessoas que me eram significantes e que partiram. Aprendi também que, se desejamos a continuidade, é fundamental abraçar o real. Abraçar verdadeiramente, na realidade  de cada contexto que o destino nos traz.

Uma mulher morre e renasce quando menstrua, quando inicia sua vida sexual, quando se torna mãe. Um homem, da mesma forma, ao virar pai ou marido. São novas pessoas na mesma existência.

Crescer fisicamente tem a regência autômata do corpo. Crescer psicologicamente, porém, envolve disponibilidade e permissão interna. Quando Chapeuzinho “engole” a avó, ela assimila simbolicamente o que é necessário para mudar de fase. A morte de um aspecto nosso para se abrir ao nascimento de outro.

A Páscoa fala do renascimento, do desapego ao que foi e deixou de existir. Maria, mãe de Jesus, também nos fala de um renascer diante de uma grande morte. Ela se preserva , apesar da dor e se habilita a renascer com aceitação e enamoramento pela vida apesar dos pesares.

Permanecer preso ao que passou é desaparecer no passado. As narrativas sempre apontam que viver é transmutar.

Viver é ressurgir em muitas páscoas internas.

Penso agora numa versão de Chapeuzinho: ao invés de doces ou maçãs, ela carrega na cesta os ovos das transmutaçôes.

Ao contrário dos dizeres da foto na fachada, desejo um Feliz Pensar Para Existir.

Desejo Muitas Páscoas nos pães nossos de cada dia.

*Manoel Thomaz Carneiro é professor e psicanalista

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