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Avanços na tecnologia de diagnóstico e combate ao câncer já são realidade

O oncologista André Murad explica que novas terapias genômicas e rastreamentos estão disponíveis, inclusive no Brasil

Não faz muito tempo, o tabu em torno do câncer era tão impenetrável que até a palavra era interditada. Os americanos chegavam a se referir à doença como “the big C”. Mas essa percepção vem mudando, ainda bem. E não é à toa. A ideia de uma doença tratável e curável se estabeleceu na grande maioria da população.

– O avanço nos últimos anos é notável – afirma o médico oncologista André Márcio Murad, pesquisador e coordenador da Disciplina de Oncologia da Faculdade de Medicina da UFMG e diretor clínico da Personal – Primeiro, houve um maior entendimento da genética molecular do câncer. Mais recentemente, aumentou o conhecimento sobre o mecanismo pelo qual as células tumorais inibem a resposta imunológica do nosso organismo. Isso faz com que haja melhor controle de boa parte dos tumores, mesmo nos seus estágios mais avançados.

Traduzindo: pesquisas vêm desvendando os truques que a doença usa para se instalar e proliferar. Os resultados são práticos e imediatos, para grande parte dos cânceres, como os de intestino, mama, rim, ovário, melanoma, linfomas e leucemias.

– Nos anos 1990, pacientes com câncer avançado de pulmão tinham um prognóstico de sobrevida de 9 meses – prossegue Murad. – Hoje, essas contas já se multiplicam por cinco ou seis, e a tendência é dilatar cada vez mais a sobrevida.

O câncer, ou neoplasia maligna, é a multiplicação desordenada de células, que pode invadir órgãos próximos ou distantes. Quem ouve falar sobre terapia genômica e imunoterapia está no caminho certo para entender as mudanças na abordagem terapêutica. André Murad menciona “as drogas denominadas ‘alvo-moleculares’ e os agentes imunoterápicos de última geração”. E explica:

– Nosso organismo atua reparando diariamente nossas células. Uma das ações da terapia genômica é chegar diretamente a determinado alvo causador da multiplicação descontrolada das células de um determinado tumor, ou mesmo da perda do autorreparo destas células; ou ainda facilitar o combate ao tumor pelo próprio sistema imunológico. Já os medicamentos de tecnologia alvo-molecular, desenvolvidos nos últimos 18 anos, atacam especificamente as células doentes: agem sobre genes alterados e suas proteínas. Não é como a quimioterapia convencional, que ataca células tumorais e as saudáveis também.

Essas novidades se desdobram rapidamente em novas abordagens do tratamento, desmontando pouco a pouco a capacidade dos cânceres de ‘ se esconder’.

– A imunoterapia de última geração se baseia nos “inibidores de proteínas dos pontos de checagem imunológica” e utilizam o próprio sistema imunológico do paciente para combater as células tumorais – reforça o médico. Esta nova classe de imunoterapia desliga um sistema de camuflagem das células tumorais e permite que o organismo combata o processo.

Além do tratamento, avançaram o monitoramento das abordagens terapêuticas e também a prevenção.

– Em casos de cânceres já diagnosticados, há a “biópsia líquida”: o DNA das células tumorais circula pelo sangue periférico e hoje já há tecnologia disponível para extraí-lo e também sequenciá-lo, conta Murad. – Esta ferramenta permite não só o diagnóstico molecular tumoral como também detecta com precisão resposta, remissão molecular e recaída ou resistência tumoral. Com relação ao câncer hereditário, ou seja, quando sua causa se encontra em uma alteração genética herdada e presente no DNA de todas as células do organismo, existe tecnologia se sequenciamento genômico capaz de identificar todas estas mutações, que podem ser responsáveis por até 32% dos casos de câncer. A partir do diagnóstico de uma determinada síndrome de predisposição ao câncer, pode-se então programar um rastreamento precoce específico para aqueles tumores para os quais há uma maior predisposição, além de modificações da dieta, de hábitos de vida ou mesmo até a programação cirurgias conhecidas como “redutoras de risco”, como a remoção preventiva de mamas, ovários, tireoide.

A técnica de exames por PCR digital, como dd-PCR (digital em gotas) pode “poupar os pacientes de biópsias desnecessárias e oferecem uma maior sensibilidade para a detecção de alterações gênicas nas chamadas biópsias líquidas”, completa ele.

– Estas ferramentas são essenciais para a prática da denominada oncologia de precisão ou personalizada.

O Laboratório Personal de Belo Horizonte de genética molecular colocou  em funcionamento os primeiros painéis genéticos customizados pela tecnologia dd-PCR no Brasil.

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