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Artista plástica, com a mostra OPUS CW XVI em cartaz no Rio, conta da sua outra missão: cuidar de animais abandonados

Claudia Watkins tem hoje mais de cem cães em casa. Suas telas podem ser vistas até 12/3 no Centro Cultural Correios

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Desde criança, eu dizia que, em adulta, minha casa abrigaria os cachorros abandonados na rua. Eu andava com minha mãe por Ipanema e pedia para levar os vira-latas para casa. Ela não deixava, claro, embora todos gostássemos de animais.

Cresci, tive filhas, virei artista. Em casa, só tinha gatos. Um dia, decidi me mudar para Teresópolis, viver em contato com a natureza, estar próxima aos animais. O sonho do passado ficara esquecido, mas ressurgiu, forte, no dia da mudança. Eu parei num restaurante da estrada e lá estava Ringo, um cachorro lindo, de rua, que, de repente, pulou para o banco do carona do meu carro e se instalou em minha vida.

Foi uma bela mudança, o encontro com um alegre companheiro, amigo, simpático, amoroso. Estava contente com o Ringo, mas tive que me abrir para muitos outros cães. As chuvas de 2011 mataram muitos moradores de Teresópolis e deixaram ao relento os animais de estimação dessas pessoas. Foi quando eu vi que precisava recolher esses cachorros, que tinha disposição, saúde e amor suficiente para resgatá-los.

Construí canis, a notícia se espalhou e, quando vi, tinha dezenas de cachorros de todos as raças, tamanhos e índoles sob meus cuidados. E tudo às minhas expensas. Não quis abrir uma fundação, porque não poderia receber mais animais – e mesmo assim, hoje, tenho cem cães em casa. Quatro deles, muito carentes, dormem em meu quarto, dividem a casa com nove gatos, eu, uma de minhas filhas e meu neto.

Manter essa estrutura exige mais do que recursos financeiros. Tem que haver disposição, empenho e amor incondicional. Não resisto ao olhar de um animal maltratado, abandonado, necessitado de apoio e carinho. A vida ficou complicada. Há horários estabelecidos para soltar cada grupo pelo terreno, pois são bandos diferentes, acostumados apenas com os que dividem os canis. Mal posso sair de casa, porque eles precisam de mim para alimentá-los, para dar remédios, exercitá-los e, principalmente, estarmos juntos, desfrutando da companhia uns dos outros.

Nem no meu sonho de criança eu imaginava que viria a cuidar de tantos animais. Eles pedem minha atenção, mas consigo me organizar o bastante para estar com minha família e trabalhar. Geralmente, pinto de manhã ou à tarde, sempre quando há luz natural. Nos quadros da série Amor Abstrato, em que expresso em imagens esse sentimento quase indescritível que meus bichos despertaram em mim. A vida se complicou um bocado, faço malabarismos para atender a compromissos que seriam mais fáceis se eles não dependessem tanto de mim.

Na abertura da exposição Opus CW XVI, em dezembro, no Centro Cultural Correios,  eu pensava como eles ficariam aquela noite, em que precisei dormir no Rio. Mas eles estavam lá, presentes em alguns quadros da Amor Abstrato, que foram expostos, junto com as séries Madeixas e a Vasos e Flores, esta última, totalmente produzida em 2016.

Cuidar de tantos animais talvez seja minha missão, minha vocação ou apenas uma resposta à intuição de proteger seres indefesos. O certo é que deles recebo inspiração e a certeza de que a gratificação e felicidade vêm de amar do que de ser amado.

A carioca Claudia Watkins é artista plástica, radicada em Teresópolis há vinte anos anos. A mostra Opus CW XVI reúne alguns de seus trabalhos no Centro Cultural Correios (Rua  Visconde Itaboraí, 20, Centro), até 12 de março.

Claudia em seu ateliê  algumas obras da mostra:

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