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“Amar o amor é tudo de bom”

Manoel Thomaz Carneiro reflete: "O amor se mantém pela capacidade de encontrar a admiração em alguns aspectos do outro"

 

Há muitos anos percebi que, na vida humana, o tema predominante é o amor. Seja nos consultórios, na música, na poesia, no cinema: as narrativas passeiam pelos encontros e desencontros.

Como afirmou Freud, somos um corpo de afetos e desafetos. O sonho do grande encontro passa pela mente de qualquer pessoa, seja numa época  da vida ou em toda a existência.

Fui assistir, no Teatro dos Quatro, situado no Rio de Janeiro, a peça Minha Vida em Marte, da autora e atriz Mônica Martelli. Na montagem com direção de Suzana Garcia, diante um cenário criativo, nos deparamos com situações muito presentes na vida amorosa.

Este novo e excelente texto consegue nos levar aos risos e às reflexões. Estão nele nossas dores, incertezas, alegrias, prazeres e as tão temidas desesperanças. As gargalhadas me reportaram ao aspecto da superação das dores do amor. Quando se consegue conquistar o senso de humor diante da própria história, a dor já está no apaziguamento.

Percebo que muitos buscam o encontro do amor sem saber exatamente do que ele é constituído. Dizem que o amor não tem uma razão, mas a presença – ou a falta! – de qualquer sentimento tem a causa em cada um de nós.

O amor é uma busca que nos põe em busca. Cada pessoa sonha com um encontro que nos complemente, que traga segurança, realização, felicidade. Esse desejo é sempre baseado na ideia que o sentimento vai durar para sempre.

O amor romântico, apesar da modernidade, continua a circular pelo desejo.

Mas, afinal, o que é se unir a alguém?

As opiniões por vezes são divergentes ou contraditórias. O desconhecimento nos impede de encontrar uma bússola pra viver o encontro com mais certezas.

Compreender o amor como um fenômeno psicológico traz mais consciência na forma de vivê-lo e até nos capacita a reconhecer se estamos apenas no registro do hábito da convivência. A necessidade do outro existe desde a concepção e, por mais que se tenha autonomia para viver, o nosso psiquismo produz a contínua necessidade do encontro. É uma necessidade atávica à vida humana.

Mas a complexa sensação de “encontrar o verdadeiro amor” está enraizada nas demandas imensas que o psiquismo faz em relação a este Grande Outro.

Ele nos impõe encontrar a pessoa que nos desperte amor em relação aos valores existenciais, aos temas prediletos do dizer e ainda ao contexto de vida que envolve a família,  amigos e estilo de vida.

Muitas exigências? Com certeza, muitas.

Será que conseguiremos nesta vida amar alguém por inteiro – um amor que envolve a pessoa, suas temáticas e ainda o contexto total?

Mônica, na peça, nos mostra a empolgação do início e as frustrações que, em muitos casos, fazem o amor desbotar. Uma das razões do desbotamento do sentimento está na perigosa posição de amar mais o ideal do que o real. Afinal, quem ama o ideal, não consegue amar o real.

Nesta premissa do ideal,  o olhar se fixa apenas nas diferenças.

Somos tão treinados no olhar do erro que, se não estivermos atentos, perdemos o foco nos aspectos positivos – do outro e até dos nossos.

O amor se mantém pela capacidade de encontrar a admiração em alguns aspectos do outro. A admiração é a base da permanência e as razões podem ser renovadas. “Para sempre amar” envolve ressignificar.

Naturalmente o que é para sempre não é sempre. O que isso significa? Que mesmo a presença do amor não pode ser avaliada por episódios momentâneos de falta de desejo, ou de perseverança. Nada pode ser definido apenas por um episódio.

Há dias em que acordamos mais em contato com as faltas e, nessas horas, as faltas fazem falta. Em contrapartida, temos períodos em que estamos em sintonia com os aspectos mais mobilizadores do outro. E aí?  Nestes momentos as faltas não fazem falta. Na convivência,  sempre faltará uma parte da fração.

Se entre os dois houver respeito e a união for destituída de perversidade, vale, antes de desistir, avaliar. Como eu disse no programa  Papo de Segunda, do GNT, se está difícil comer o caviar, porque morrer de anorexia afetiva. Desde que não esteja estragado, claro!

A Cinderela contém a borralheira. O Príncipe contém o sapo. Há dias em que o nosso olhar só enxerga a abóbora.

Quem sabe nestas horas não seja bom refletir que no desencanto pode morar o encanto?

Se você encontrar razões saudáveis para permanecer, o seu amor tem razão. É um amor que se tem razão para amar.

Há também outra forma de amor na vida, que se refere aos seus projetos.

Por isso dou os meus parabéns à Lu, proprietária do Teatro dos Quatro. Apesar das dificuldades, ela encontra sempre razões para continuar amando esse Templo da Arte.

É sempre tocante testemunhar a vivência do amor inteligente.

Sejam as Monicas Martellis com a arte, sejam as Lus com os teatros, sejamos nós com nossos projetos existenciais.

A Vida em Marte pode ser divertida aqui na Terra.

Feliz Dia  Dos Enamorados do Amor.

Amar o Amor é tudo de bom.

*Manoel Thomaz Carneiro é professor e psicanalista

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