< Voltar

Acumuladores: quando juntar objetos e até animais é sinônimo de transtorno mental

Condição patológica mais comum do que se imagina, o Transtorno de Acumulação precisa ser reconhecido e tratado

 

 

A imagem acima assusta. E fica mais impressionante ainda ao sabermos que não se trata de um morador de rua, mas de uma senhora classe média. Essa compulsão de juntar objetos e até lixo tem nome – e é uma doença em seus estágios mais avançados. São os acumuladores, ou vítimas do Transtorno da Acumulação, que podem guardar tudo, até embalagens sujas; ser coletadores de itens pelas ruas, ou compradores de uma enorme quantidade de um único item, ou recolher animais muito além da capacidade de cuidar deles. E não descartam nada.

Muita gente tomou conhecimento dessa patologia através de uma série de TV a cabo que acompanhava esses casos os Estados Unidos e mostrava situações até radicais. São os graus mais extremos da doença. E é preciso saber reconhecer quando o caso é de tratamento, que costuma ser um processo complexo. Numa sociedade em que se valorizam as posses materiais, o acumulador é a face mais distorcida dessas ambições.

A psicóloga Carolina Marques, cofundadora da Estar Saúde Mental, pós doutorada em Psiquiatria e Psicologia Médica pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), conversou com o site sobre o assunto.

Existem o colecionador e o acumulador. Qual é a fronteira entre os dois? Quando juntar coisas vira uma compulsão?

Quando falamos de acumuladores compulsivos, enxergamos vários perfis e um deles são os colecionadores. O limite entre o normal e o patológico se dá em várias características, mas principalmente pelo tipo de objeto colecionado. Um colecionador de carros antigos, por exemplo, vai investir em carros antigos. Já um colecionador patológico vai reunir qualquer item. Além disso, quando a acumulação se torna uma doença essa pessoa irá ter dificuldade de organizar o espaço, tornando os ambientes de casa muitas vezes inabitáveis para dar espaço aos objetos de coleção, sem contar os prejuízos sociais e profissionais.

Em que medida se correlacionam a solidão e o acumulador? Os objetos começam a representar companhia ou a vergonha da situação causa o isolamento?

Essa pergunta é bem interessante. Pesquisas apontam que grande parte de quem sofre do Transtorno da Acumulação é solteiro e mora sozinho. Há casos de mulheres, por exemplo, que acumulam animais depois de algum trauma de relacionamentos. A pessoa passa a considerar o afeto por um animal mais compensatório ou mais fácil, mas não podemos generalizar. O isolamento social, sem dúvidas, é decorrente da acumulação. Os lares se tornam inabitáveis, portanto, em muitos casos o acumulador sofre e sente vergonha das condições de seu lar, afastando amigos e parentes do seu convívio.

Numa sociedade que estimula a aquisição, isso se tornou mais comum?

Sem dúvida. Como podemos acompanhar nos programas de TV, o TA é muito comum nos Estados Unidos, o país onde o consumismo é super incentivado e onde há muita facilidade para aquisição dos produtos. Mas a questão do incentivo ao consumo é apenas um dos fatores envolvidos no transtorno – não é o principal. Mesmo em sociedades que não têm esse incentivo, há pessoas com esta condição, que está mais ligada a fatores psicológicos. Pesquisas indicam que a origem do acúmulo pode estar na violência física e privação afetiva na infância, ou doença mental dos pais. Pode também se relacionar com a privação material em algum momento da vida. A manifestação é mais frequente na meia idade e segue um padrão: costuma afetar pessoas que moram sozinhas, não trabalham e estão acima do peso. Além disso, o TA é duas vezes mais frequente em homens que em mulheres.

Qual é o tratamento para um acumulador compulsivo? O acumulador chega a reconhecer sua situação?

Tratar o TA é um desafio. Eles não reconhecem a acumulação como um problema – pelo contrário, colocam valores afetivos nas coisas, têm uma conexão emocional com seus objetos ou animais. Desenvolvem crenças disfuncionais e pensamentos catastróficos sobre o descarte – como vou viver sem isso, não terei dinheiro para comprar outro etc. Os acumuladores são muito resistentes a se livrar dos objetos. Raramente um acumulador patológico irá reconhecer o problema a ponto de pedir ajuda, claro que pode acontecer, mas em geral é a família.

A TCC, Terapia Cognitiva Comportamental, é a abordagem mais usada atualmente para tratar o TA, trabalhando para quebrar as crenças disfuncionais sobre o acúmulo, desenvolvendo estratégias para diminuir a frequência dos hábitos de coleta.

O que faz a família num caso desses? Também se trata, como os familiares de alcoólicos?

É importante que, ao notar qualquer sinal indicando a acumulação patológica, a família busque ajuda. Os acumuladores não percebem o problema, não têm motivação para tomar decisões e por isso a família é muito importante. É a família ou um amigo próximo que poderá realmente motivar o acumulador a perceber seu problema. O tratamento é direcionado para o acumulador. Caso o familiar more junto, poderão ser feitas sessões em família.

 

 

 

Compartilhe!
Share on FacebookTweet about this on TwitterEmail to someone