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“O mundo virtual não atende às necessidades de contato. É no abraço que existimos”

O psicanalista e professor lembra que o contato virtual facilita mas, como dizia Yves Saint-Laurent, "a melhor roupa é o abraço"

 

Outro dia, quando terminei de atender no consultório, havia 73 mensagens no whatsapp. A maioria envolvia perguntas, pedidos de esclarecimentos e até tomadas de decisão. Era uma quantidade recorde, mesmo em relação ao grande número de mensagens que recebo.

Ao ler essa informação, você pode pensar: “Nossa, como ele é solicitado! “.

Antes de responder a cada uma das mensagens, comecei a pensar na necessidade de conexão que nós, seres humanos, temos. A tecnologia de fato nos colocou nesta fácil ligação com gente no mundo inteiro. Podemos  interagir em tempo real com quem está no Japão ou em qualquer outra parte do mundo. A qualquer hora do dia ou da noite, você posta algo no Instagram, no Facebook, num blog, num site, há alguém que de imediato encaminha um like ou um comentário.

Essa sintonia, sobretudo nas horas noturnas, diminui a sensação de isolamento Assim, enquanto o mundo dorme, podemos encontrar alguém para interagir e  a sensação de solitária vigilância é apaziguada. Alguém o visita virtualmente. Através deste caminho virtual, as distâncias foram quase eliminadas.

Comparecemos a um evento, mesmo sem ter ido, de certa forma, através das fotos, dos vídeos e das mensagens escritas. Podemos enviar pêsames por uma perda,  parabéns pelo aniversário, noivado, casamento, Bar Mitzvá. Testemunhamos situações que não nos dizem respeito diretamente!

Esta tecnologia vem modificando radicalmente o comportamento humano – quem há de contestar isso? Os recursos da nossa era de pós modernidade nos fazem mais acessíveis e presentes no ambiente online.

Falamos que  a interação com o outro é uma necessidade atávica do ser humano – afinal, precisamos do outro desde o nascimento. Se formos pensar mais amplamente, sem dois grandes ‘outros’ nem mesmo seríamos concebidos.

Mas será que esta onipresença virtual supre  nossa necessidade de presenças? Será que esta interação sacia nossa carência?

Todas essas perguntas me transportam para um fato ocorrido na Grã Bretanha durante a Segunda Guerra Mundial. Na época, os homens eram convocados para o exército, para as batalhas; as mulheres eram recrutadas como voluntárias em serviços de socorro. Pois exatamente neste período, entre 1939 e 1945, percebeu-se que os bebês e as crianças em Londres começaram a apresentar maior suscetibilidade a doenças e muitas delas tiveram o crescimento comprometido. O rei George, pai da atual rainha Elizabeth, convocou o pediatra Donald Woods Winnicott – também psicanalista, dedicado ao universo psicológico da infância – para diagnosticar as causas dessa onda de doenças.

O perspicaz Winnicott, mesmo sem os recursos atuais como ressonâncias magnéticas, descobriu que, apesar das crianças estarem assistidas nas necessidades básicas subvencionadas pela Inglaterra, sofriam com a ausência das mães durante longas horas. E isso era causa das doenças. As mães chegavam em casa tão exaustas que não tinham energia para interagir com os filhos.

A partir deste diagnóstico, decidiu-se que as mulheres teriam pausas em seus turnos de trabalho para estar fisicamente com os filhos. Os resultados foram impressionantes. As crianças recuperaram a imunidade e o ritmo do crescimento físico voltou ao normal.

Essa experiência foi um marco na compreensão da necessidade da interação física das mães com os filhos. Estabeleceu-se que crianças necessitam de colo, de toques físicos, além da alimentação e da higiene. E isso é algo que nenhuma tecnologia virtual de aproximação pode suprir.

Você poderia então concluir: ‘então, na infância o toque é fundamental para o desenvolvimento emocional e físico e ponto final’. E estaria correto. Mas a partir da década de 80, com o advento das neuropesquisas, constatou-se que o toque e a presença física, a troca na forma de escuta e fala são altamente estimuladoras da imunidade e também da neuroplasticidade, que é responsável pela renovação do cérebro em todas as idades.

Esta necessidade de contato físico só é suprida na presença. Na presença real.

Os computadores estimulam o lobo frontal do cérebro e, de fato, nos informam e nos distraem. Mas somos corpos concretos e afetivos. O mundo virtual não atende às nossas necessidades humanas no que diz respeito à presença das pessoas significantes.

O contato virtual agiliza as informações e cria pontes, mas está longe de suprir  a necessidade do olho no olho. Veja o termo ‘viralizar’, que aponta para a explosão de imagens,  notícias e música com o poder de disseminação de um vírus. Mas mesmo este potente abraço virtual não abraça o corpo de nossa subjetividade.

O grande costureiro Yves Saint Laurent disse que a melhor roupa era o abraço daqueles que amamos, seja do amigo ou daqueles com quem temos outras formas de amor. Ele continua a ter razão.

O corpo virtual é um. O corpo real é outro. O sexo real promove fusões e grandes sensações. A união se conquista pelas presenças sensualizadas da escuta, da fala, do carinho e do beijo.

Vamos agregar presenças de vários modos. Virtualmente aparecemos,  mas é pessoalmente que existimos.

É com base nesse pensamento que continuo a acreditar nas falas artesanais realizadas nas salas de aula, nos espaços de conferências, nos encontros para conversar e abraçar.

Respondi à maioria das mensagens que recebi naquele mesmo dia, mas deixei algumas para mais tarde. Com certeza, após algum tempo, chegaria a hora de sair para me vestir do abraço, aquele melhor roupa segundo Yves Saint Laurent.

Uma criação da Alta Costura Existencial.

Vamos ter o máximo de Estilo no Virtual e no Real! Moda Abraço: saber Existir é alta costura também.

*Manoel Thomaz Carneiro,professor e psicanalista. “Entrevisto a jornalista  escritora Márcia Peltier, numa doce inversão de papeis, na tarde que será em parte em benefício do projeto da Dra Rosa Célia, Pró Criança Caríaca. Será uma tarde de abraços. A lotação está esgotada”.

 

 

 

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